"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

quarta-feira, outubro 11, 2017

O meu filho não me respeita!!!


O que se entende por desrespeitar os pais? Existem limites? Quais?
É comum que, durante a etapa da adolescência, surjam mudanças significativas nas relações familiares. 
Em muitos casos, essas mudanças fazem-se acompanhar de um aumento de conflitos entre pais e filhos.
A adolescência traz consigo a necessidade de questionar, de descobrir, de redirecionar. Passa a haver a necessidade de rever as regras, os valores e até as crenças familiares.  
Um/a filho/a mais instável e irritado/a pode tão somente estar a manifestar, à sua maneira, a necessidade de diferenciação das figuras parentais, em busca da sua própria identidade.
É comum os jovens manifestarem ataques de raiva, isolarem-se em quartos fechados, buscarem apoio nos avós ou começarem a apresentar comportamentos desafiadores ou de risco.

Os adolescentes desafiam o sistema familiar porque essa é a natureza do desenvolvimento, nem sempre se trata de uma questão de desrespeito! 
Famílias com fronteiras mais flexíveis permitem que o adolescente se vá experimentando em diferentes territórios, aproximando-se quando se sente inseguro e afastando-se quando necessita de testar a sua independência.

Se pelo contrário, os pais, são rígidos e inflexíveis,  não vão facilitando  a separação e autonomia do jovem, os jovens começam a usar meios cada vez mais extremos para tentar impor a sua precária autoridade ou para marcar distâncias, incluindo a utilização de violência tanto com os seus irmãos mais novos como com os seus progenitores.
A resposta de que necessitam, por parte dos pais/cuidadores deverá, no entanto, ser promotora do      reequilíbrio emocional. 
A clareza das regras e limites é essencial para assegurar estes 3 grandes pilares da vida do adolescente.

Assim, nesta fase, é fundamental que os pais  apostem  num aumento da flexibilidade das fronteiras e nas forma de expressar a sua  autoridade, de forma a manter a harmonia familiar. È essencial distinguir e não confundir entre os pais como autoridade de pais autoritários.

O respeito e os limites estão ultrapassados quando entramos no campo da violência familiar.
A violência filio-parental, é um tipo de violência familiar e refere-se a comportamentos de violência física (agressões, empurrões, atirar objectos) verbal (insultos repetidos, ameaças) ou não verbal (ameaças de agressão, destruição de objectos apreciados) realizados de maneira repetida em relação a um ou ambos os progenitores, ou aos adultos que ocupam o seu lugar,

Este tipo de violência origina um enorme sofrimento e stress nas famílias, ao mesmo tempo que podem representar o inicio de uma “carreira de agressor” nos jovens que perpetuam este tipo de violência, necessitando por isso de uma resposta específica por parte dos profissionais de saúde mental.

Que tipos de casos entre mau relacionamento entre pais e filhos costuma receber nas suas consultas?
Existem pedidos muito diversos e que vão desde os pequenos conflitos familiares entre pais filhos, pais que não se sentem respeitados e que não conseguem fazer com que os filhos cumpram as suas regras, muitos pais com dificuldades em lidar com s processos de autonomia na adolescência dos seus filhos, aos casos de violência entre pais e filhos e de referir que são cada vez mais frequentes.

Por que muitos pais não conseguem ganhar respeito dos seus filhos? Quais os quadros familiares associados a este tipo de relação?
As dificuldades dos pais em ganharem o respeito dos filhos estão fortemente associadas a  praticas parentais pouco adequadas às necessidades dos filhos.
Os conflitos, os problemas, e a Violência Filio-Parental são resultado de uma interacção disfuncional entre os diferentes membros do sistema familiar em que a psicopatologia aparece como expressão dessa disfuncionalidade. Esta violência tem um sentido e uma função dentro da família que deve ser entendido e decifrado.
Podemos apontar os seguintes factores que favorecem o aparecimento da violência filio parental:

·        Experiência familiar prévia de utilização da violência para resolução de conflitos;
·        Violência familiar generalizada: todos contra todos;
·        Pais não normativos “democráticos”, excessivamente permissivos, que gostam dos seus filhos façam estes o que fizerem;
·   Pais superprotectores por razões diversas: filho muito desejado, tardio, frágil ou adoptado, dispostos a satisfazerem todos os desejos dos seus filhos.
·        Relação “passional”, “fusional” entre um dos progenitores e o filho;
·        Violência prévia dos pais entre si ou sobre o filho;
·        Conflito intenso entre os pais;
·        Triangulação do filho.
·        Pais insatisfeitos com os seus papéis ou verbalizações de que as suas vidas são vazias;
·        Inconsistência e desacordo entre os pais na educação dos filhos;
·        Severidade desproporcionada dos castigos e dos actos dos filhos;
·        Excessivo criticismo e intrusão por parte dos pais;
·        Problemas de hierarquia: pais que renunciam ao seu papel e recusam estabelecerem normas;
A ausência de uma clara definição hierárquica é a principal característica do funcionamento destas famílias. A dificuldade em estabelecer normas e limites são os pontos mais evidentes nestas famílias quando procuram ajuda.

Nestas famílias é frequente encontrarmos situações em que um ou às vezes os dois progenitores, abdicaram do seu papel parental, tendo deixado de se comportar como pais.

Quais são os pensamentos/sentimentos mais comuns nos pais perante este tipo de problema com os filhos?
A vergonha, a sensação de fracasso enquanto pais, a desilusão e o sentimento de impotência face ao problema são sentimentos comuns nestes pais.

Como devem reagir os pais quando os filhos os agridem tanto psicologica e/ou fisicamente?
Quando chegamos a este ponto é muito difícil os pais, por si mesmos, resolverem ou reverterem a situação. Muita coisa se danificou dentro de uns e outros, as formas de relacionamento dentro da família estão “doentes”  e a ajuda profissional nestes casos parece-me essencial.
Porém, importa referir que o uso da força pelos pais, ou a restituição  da ordem ou do respeito pelos mesmos meios (a violência  verbal e física) não é de todo o caminho a seguir.
A resposta de que necessitam, por parte dos pais/cuidadores deverá, no entanto, ser promotora do reequilíbrio emocional. 
O adolescente/criança ainda não é adulto, pelo que necessita de contar ainda com uma família que lhe garanta as necessidades de afecto, de segurança e de estrutura. 
Clarificar e definir regras e limites é essencial para a organização emocional do jovem.
 De referir porém, que com ajuda especializada, estes problemas resolvem-se e a família pode reaprender a viver em harmonia. 

Por que muitos pais suportam ser mal tratados pelos seus filhos?
Nas famílias com Violência Filio-Parental a imagem familiar, tanto dos pais como dos filhos encontra-se detiorada.  A sensação de fracasso dos pais na educação dos filhos, a vergonha que implica ser agredido por um filho, impõe a necessidade de protecção da imagem familiar, o que faz com que as famílias afectadas muitas vezes subestimem a agressão e minimizem os seus efeitos, mesmo quando são públicos e evidentes. A deterioração da situação familiar faz com que a família adopte comportamentos de forma a apresentar uma imagem oposta, potenciando assim o Mito da Paz e da Harmonia Familiar, muito frequente nestas famílias, mesmo quando no exterior já se sabe. Para ocultar o que está acontecendo vai-se construindo um segredo familiar: começa a evitar-se determinados temas, a deixar de falar de situações e comportamentos que poderão por em causa o Mito.
A negação da violência filio-parental , por parte dos pais,  é praticamente uma norma e pode chegar a extremos graves: toleram-se níveis elevados de agressividade durante um período prolongado de tempo antes de se tomarem medidas .

Existem muitos filhos que culpam os seus pais pela falta de sucesso na sua vida e consideram que é obrigação dos pais ajudá-los incondicionalmente. Como devem os pais contrariar esta pressão dos filhos?
Os filhos pedem… cabe aos pais dizer tranquilamente, sem culpas, que não podem! Os filhos fazem pressão, quando sabem que ao fim de algum tempo de pressão conseguem alcançar os seus objectivos. Quando perceberem quer não conseguem nada com pressão, acabam por abandonar essa estratégia. Assim sendo, a consistência e coerência das regras, pelos pais é fundamental! Não podem dizer que não a algo, e depois sim, sem nenhuma razão justificativa para essa mudança de opinião. E não devem sentir-se culpados por dizer não aos filhos! Os pais podem até não ter feito tudo como deviam, mas fizeram aquilo que sabiam e acharam melhor, mas a partir de certa altura são os filhos, agora jovens adultos, que passam a ser responsáveis por si próprios.
A culpa que os pais  possam eventualmente ter, por ter falhado algures, podem admiti-la, mas com a consciência de que não a podem corrigir porque o tempo não volta atrás, e principalmente que não têm de continuar a pagar essa culpa sob  chantagem e  cedências à pressão dos filhos.

A incapacidade de pais e filhos comunicarem, ou porque não falam a mesma linguagem, ou porque não respeitam as crenças uns dos outros, entre outros, podem algum dia ser ultrapassados?
Sim, sem dúvida que se podem ultrapassar essas diferenças. A terapia familiar é fundamental no restabelecimento da harmonia familiar. Numa família, não têm de pensar todos o mesmo, mas têm sobretudo de falar a mesma língua: a do respeito e admiração pela individualidade de cada um.


Entrevista cedida por Maria de Jesus Candeias, Psicóloga clínica e Psicoterapeuta, para o Portal Sapo Saúde , Setembro 2015

terça-feira, setembro 26, 2017

Medos e fobias nas crianças


Monstros &Companhia

Entrevista cedida por  Maria de Jesus Candeias à  Revista Pais & Filhos, Dezembro de 2013.
Texto de TERESA DIOGO
Ilustração de CARLA ANTUNES


Os medos na infância são tão comuns quanto importantes para o desenvolvimento. Vão variando consoante a idade, mas todos requerem confiança e segurança.

O Rodrigo tem dois sprays anti-monstros no quarto, um em cima da mesa-de-cabeceira, não vá ser preciso atuar durante a noite, e outro no móvel dos brinquedos, para ter a certeza de que não é apanhado desprevenido enquanto brinca. Todas as noites, antes de ir para a cama, a mãe acompanha-o na ronda em busca de seres assustadores debaixo da cama, dentro do guarda-fatos, atrás do cortinado... Sempre com o spray mágico na mão. Só se deita depois de se certificar que não há nenhum monstro escondido. A mãe fica no quarto até ele adormecer e a luz de presença fica acesa a noite inteira. À falta de uma solução melhor, a mãe do Rodrigo, de cinco anos, resolveu munir o filho de uma ferramenta implacável contra os monstros imaginários que lhe causam tanto medo e que tornavam a hora de deitar num suplício. Inspirou-se nas ideias que encontrou na internet, agarrou num vaporizador vazio, enche-o de água, colou um rótulo apropriado a um produto anti-monstros e disse-lhe que agora já não precisava de ter medo: se aparecesse algum monstro, bastava usar o seu spray mágico! A ideia agradou-lhe e, embora ainda com algum receio, a ida para a cama assumiu contornos de brincadeira e tornou-se muito mais fácil. Ao mesmo tempo, a inspeção exaustiva ao quarto permite-lhe enfrentar o medo e verificar que, afinal, ali não há monstros.

A “técnica” do spray anti-monstros é usada por muitas famílias por esse mundo fora, como se pode constatar nos inúmeros mommy blogs que a sugerem. Para algumas crianças, como é o caso do Rodrigo, pode de facto ser uma grande ajuda e transmitir a tão desejada segurança para enfrentar as criaturas imaginárias, mas para outras esta estratégia pode não se revelar eficiente. Antes pelo contrário: a caça aos monstros significa que existe a possibilidade real de estar frente-a-frente com um deles e esta ideia é ainda mais assustadora. Por outro lado, a inspeção ao guarda-fatos ou debaixo da cama pode levar a criança a pensar que se os adultos estão à procura é porque os monstros existem mesmo. Ou seja, cada caso é um caso e o melhor é escolher a estratégia de ataque com bom senso, porque o que resulta para uma criança pode agravar ainda mais a ansiedade de outra.

“Os medos na infância são muito comuns, mas variam naturalmente de criança para criança, de acordo com as suas caraterísticas individuais e dos contextos. O mesmo estímulo pode ser ameaçador para uma criança e ser indiferente para outra. Além disso, um mesmo estímulo pode numa dada circunstância ser ameaçador para a criança e noutra situação ser-lhe totalmente indiferente”, sublinha Maria de Jesus Candeias, psicóloga clínica e psicoterapeuta infantil. Uma criança de três anos pode, por exemplo, ter medo de entrar sozinha numa sala cheia de crianças que não conhece, mas sentir-se completamente à vontade se estiver acompanhada pela mãe ou pelo pai.

O medo é um sentimento universal “que faz parte de todos nós e, em particular, faz parte do crescimento das crianças”. Transmite-nos a sensação de que corremos perigo e é geralmente acompanhado de sintomas físicos, “tais como aceleração cardíaca, vermelhidão e angústia”. Embora estes sintomas possam ser bastante incómodos, servem muitas vezes para “nos alertar do perigo e como tal para nos proteger”. Na verdade, sem a capacidade de sentirmos medo, dificilmente teríamos sobrevivido enquanto espécie. E esta função protetora e adaptativa é especialmente importante nas crianças. “É este medo que faz com que as crianças reajam a estranhos, não se aproximem de certos animais entendidos como perigosos, não se afastem dos pais em locais desconhecidos, evitem entrar em sítios escuros ou sintam a necessidade de recorrer a um adulto para o fazer. É este medo que faz com que as crianças se atirem para o colo da mãe ou do pai quando ouvem um barulho violento”, explica a psicopedagoga Daniela Sciaccaluga, sublinhando, porém, que “é importante que, uma vez cumprido o papel do medo de avisar o organismo do risco iminente e provocar uma reação ajustada, este diminua, caso contrário torna-se inútil e perigoso”. Numa situação “normal”, quando uma criança se apercebe, por exemplo, que afinal aquele barulho violento não se trata de algo ameaçador, o medo “deverá de imediato e naturalmente recuar”.

Das trovoadas às bruxas

A natureza dos medos varia consoante a idade da criança e há medos “típicos” em cada fase do crescimento. Assim, é natural que os bebés reajam com medo ao escuro, a ruídos fortes, a estranhos e ao afastamento da mãe ou do pai. Entre os três e os seis anos de idade são frequentes “os medos sobre as coisas que não são baseadas na realidade (como o escuro, monstros e fantasmas), animais, ruídos muito altos e estridentes”, esclarece Maria de Jesus Candeias, referindo que “ esses medos são transportados muitas vezes para a noite na forma de pesadelos”. Já o medo de perda dos pais é, geralmente, “transportado para a recusa escolar”. Nas crianças entre os sete e os 12 anos, os medos refletem circunstâncias reais que lhes podem acontecer: “É comum o medo da morte, de doenças, de catástrofes naturais”.

No apartamento em frente ao de Catarina, três anos, vive uma família simpática, com duas filhas pequenas, com quem a menina  brincava, tardes a fio… até que ao agregado familiar vizinho se  juntou um cão. Minúsculo, enérgico e meigo, que procurava apenas festas e colo. Mas, para Catarina, aquele é um ser demasiado assustador, que a deixa em pânico e sem saber onde se esconder. Deixou de visitar as amigas e tem pavor de se cruzar com o cão à porta de casa. “Sempre que saímos de casa, a Catarina esconde-se
atrás do sofá e obriga-me a verificar se o Óscar não está no hall. Só quando tem a certeza de que ele não está é que sai disparada, entra no elevador e implora-me que me despache a fechar a porta de casa e do elevador. Se demoro mais do que um minuto, desata aos gritos e a tremer, com medo que ele apareça. É inexplicável”, conta a mãe, sublinhando que Catarina nunca foi mordida por nenhum cão, nem passou por qualquer episódio traumático com animais. A mãe já lhe explicou que o Óscar é um bom cão, é inofensivo e
só quer ser amigo dela, mas Catarina encolhe-se só de ouvir falar nele. Se, por azar, se cruzam à entrada do prédio, Catarina trepa pela mãe acima, esconde a cara no seu pescoço e grita como se estivesse a ser atacada por um monstro. “É irracional e já não sei o que fazer para que ela perca este pânico. Evito a todo o custo que se cruzem, mas às vezes acontece… e é terrível”.

Quando uma criança apresenta um medo assim, seja de um cão, de estranhos ou de um corredor longo e escuro, é natural que os pais a tentem proteger dessa situação. No entanto, este instinto protetor pode ser prejudicial. De acordo com um estudo recente, publicado na “Behavior Therapy”, as crianças que evitam situações assustadoras têm mais tendência para sofrerem de distúrbios de ansiedade na idade adulta.

Os investigadores explicam que evitar situações que provocam medo é contraproducente, a longo prazo, porque impede as crianças de descobrirem que a situação que temem, afinal, não é assim tão assustadora. Ou seja, impede-as de aprenderem que são capazes de lidar com situações desafiantes e de controlar a ansiedade.

Os pais têm aqui um papel determinante: “podem e devem ajudar as crianças a enfrentar os seus medos, aumentando-lhes a confiança” e evitando que “evoluam para reações fóbicas”, esclarece Maria de Jesus Candeias. Em primeiro lugar, é essencial que reconheçam que o medo é real. Depois devem incentivar a criança a falar sobre o assunto, ajudando-a assim a “libertar-se da angústia” para que o medo se torne menos intenso. Expressões como “Não sejas ridículo! Não existem monstros no armário” são proibidas. “Nunca se deve menosprezar o medo da criança, nem forçá-la a superá-lo sozinha”, sublinha a psicoterapeuta infantil. “É importante que os pais olhem para os medos dos filhos como naturais e próprios do seu desenvolvimento e que aprendam, eles próprios, a relacionar-se com estes medos de forma descontraída”, acrescenta a psicopedagoga Daniela Sciaccaluga.

A criatividade e a brincadeira podem ser fortes aliadas na luta contra os medos. “No que toca ao medo do escuro, de fantasmas, monstros, bruxas diabólicas, por exemplo, sugiro aos pais que, em conjunto com os filhos, tornem esse medo concreto, lhe deem um nome, uma cara, um tamanho, um peso, enfim, que lhe dêem uma identidade e o coloquem no contexto real, fora da imaginação da criança, pois aí já poderão vê-lo, falar com ele, tocá-lo, construir histórias e chegar a finais felizes”, sugere a Daniela Sciaccaluga, referindo que “essas histórias podem ser de variadíssimas índoles: um jogo de futebol contra o medo, uma aventura em que o João fica amigo do monstro ao salvar o seu gatinho, a história do fantasma que afinal tinha era medo do João… Enfim, as possibilidades são infinitas, mas a ideia base é retirar o poder da bruxa, do monstro, do fantasma, do escuro ao humanizá-los e torná-los próximos da família, logo, num lugar concreto e controlável, sempre num contexto humorizado, divertido e descontraído”.

Na maioria dos casos, o medo é passageiro, próprio da idade e tende a desaparecer de forma natural. Contudo, quando se torna exagerado, desproporcionado, excessivamente intenso e persistente, acaba por resultar em sofrimento para a criança. Nestes casos, estamos já perante um quadro fóbico. “Uma fobia é um medo persistente e irracional que leva a criança a evitar a todo o custo, ou a suportar com um sofrimento enorme, situações, objetos ou atividades que são assustadoras para si. A fobia carateriza-se por um aumento da ansiedade a limites que impedem a criança de funcionar normalmente”, explica Maria de Jesus Candeias.  De acordo com a psicóloga e psicoterapeuta, “as fobias nas crianças têm como pano de fundo a angústia de desamparo, o medo de abandono e as relações pais filhos pouco securizantes”. As crianças inseguras e com pouca autoestima “tendem a desenvolver mais frequentemente fobias”.

Estes medos irracionais e desproporcionados podem ser acompanhados de sintomas físicos (dificuldade em respirar, palpitações, suores, vómitos, diarreia, dores de estômago), sintomas cognitivos (preocupações excessivas, dificuldade de concentração), alterações de humor (irritabilidade) e variações no sono (pesadelos). Implicam por isso uma abordagem e acompanhamento profissional especializado. “Se for um episódio isolado, os pais não devem torná-lo mais significativo do que é, mas se surge um padrão que é persistente e muito intenso, devem tomar uma atitude, porque se não procuram ajuda, a fobia continuará a afetar a criança com consequências graves no seu processo de desenvolvimento e de socialização”, lembra Maria de Jesus Candeias. Cabe aos pais estarem atentos aos sinais e ajudarem a criança a desenvolver confiança para enfrentar os seus medos com naturalidade, antes que evoluam para reacções fóbicas. l


Se o seu filho está na idade do medo de monstros, fantasmas, bruxas e outros seres imaginários assustadores, saiba que há estratégias que o podem ajudar a superá-lo. A psicóloga Maria de Jesus Candeias sugere algumas dicas.

Durante o dia:
- Ajude o seu filho a certificar-se de que não existem fantasmas nem monstros debaixo da cama nem dentro do armário;
- Ajude-o a entender os sentimentos descontrolados que ocorreram durante o pesadelo;
- Explique e dê-lhe informações simples, claras e credíveis para que ele possa entender os acontecimentos da vida familiar que possam estar a perturbá-lo;
- Evite filmes, programas de televisão e jogos de computador que possam ser violentos e provocar medo, insegurança ou incompreensão.

Na hora de dormir:
- Sente-se junto dele e explique-lhe o que o preocupa;
- Aceite os seus receios e a necessidade de se agarrar aos pais;
- Deixe uma luz de presença no quarto;
- Encoraje-o a usar objetos de conforto (ursinho ou cobertor preferido);
- Conte histórias que ajudam a compreender os medos e sentimentos vivenciados de forma indireta;
- Se ele recorre à cama dos pais, depois de um pesadelo, deve acalmá-lo e levá-lo de volta a cama dele, onde lhe deve dar alguns minutos de aconchego e conforto.

Entrevista cedida por  Maria de Jesus Candeias à  Revista Pais & Filhos, Dezembro de 2013.
Texto de TERESA DIOGO Ilustração de CARLA ANTUNES

domingo, setembro 24, 2017

Como comunicar aos filhos pequenos que o casal se vai divorciar?


Artigo Publicado In Saúde Activa, Março 2011,  por Dra Maria de Jesus Candeias Candeias, Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta

A separação de um casal é sempre um processo difícil, que acarreta alterações no quotidiano para toda a família. Tanto mais quando existem filhos no meio, perdidos entre inseguranças, receios e falsas culpas.

Numa situação de divórcio, não só os pais são assaltados por sentimentos avassaladores, também as crianças sentem raiva, tristeza, fracasso ou dor. Será bom não esquecer este facto e criar condições para que uma expressão emocional adequada possa acontecer.

O sofrimento dos filhos com o divórcio dos pais é uma realidade da qual não há como escapar. Porém, o modo como as crianças reagem depende, em grande escala, da maneira como seus pais se comportam, encaram esta mudança e agem um com o outro.
O que desestabiliza emocionalmente os filhos, por ocasião de um divórcio dos pais, não é só a separação em si, mas também os conflitos prévios e o modo como a separação é transmitida e vivenciada daí em diante por ambos os progenitores.

Antes de mais, e sem rodeios, é importante assumirmos que este é um passo difícil, tanto para os pais, como para as crianças. Não há forma de o tornar indolor. No entanto, há algumas variáveis que podem facilitar ou dificultar o processo.

Se a separação ainda não é uma certeza, isto é, se o casal está temporariamente separado ou se já houve outras saídas de casa antes, é contraproducente dizer aos filhos que os pais se vão divorciar. É importante que as reacções geradas por impulso sejam devidamente ponderadas, para que a precipitação dos adultos não magoe as crianças inutilmente.

Por outro lado, a partir do momento em que o divórcio é uma certeza, os pais devem preparar-se para contar aos filhos. As crianças confiam plenamente nos pais e, se perceberem que estes estão a esconder-lhes a verdade, sofrerão sozinhas e tenderão a confiar muito menos nos adultos em geral.
Para minimizar o sofrimento dos filhos, os pais devem antes de mais promover uma postura da verdade. Depois de tomada a decisão da separação, não vale a pena deixar arrastar a conversa obrigatória com os filhos. O pior é deixá-los perceber que algo se passa sem se prontificarem desde logo para falar, esclarecer e dissipar dúvidas.
 A dúvida só potencia sentimentos de insegurança e medo aos filhos, que não compreendem exactamente o que está a acontecer. A criança deve ficar a par da nova situação, o mais cedo possível e sempre em conversa, conjunta, com o pai e a mãe, juntos, e nunca por intermédio de terceiros.

Por isso, é importante que os pais se organizem em nome do bem-estar dos filhos e… CONTEM A VERDADE. Idealmente, “a” conversa deverá ocorrer quando todos os membros da família estiverem presentes. Claro que isto nem sempre é possível. A mágoa e o ressentimento podem impedir o casal de viver esta etapa a dois. Se tal não for possível, é importante que ambos digam mais ou menos a mesma coisa em momentos distintos.
Mesmo com crianças mais pequenas, é importante verbalizar a situação, nem que seja através de uma história que ilustre de forma, o mais realista possível o que se vai passar.

Há que ter sempre em atenção a capacidade de compreensão da criança, adaptando aquilo que se vai dizer à sua idade, e não esquecer que esta deve ser poupada a pormenores detalhados da separação que só contribuem para aumentar sentimentos negativos. A honestidade e serenidade devem estar presentes no discurso.

Mesmo quando a relação do casal já comporta alguma agressividade, expressa em momentos de discussões abertas, a conversa com a criança deve ser calma e serena. Explicado o porquê, os pais, por muito que lhes custe ver os filho sofrer, devem abrir um espaço para que as crianças manifestem os seus sentimentos. É importante deixá-las chorar ou mesmo expressar de forma livre todas as emoções negativas e dúvidas que geralmente marcam a reacção ao divórcio: raiva, insegurança, dor. É essencial estarem atentos aos sinais posteriores, verbais e não verbais, que a criança venha a transmitir.

O facto de as crianças, nomeadamente as crianças pequenas, não se pronunciarem em relação ao tema não quer dizer que não saibam de nada. Nalguns casos as crianças decidem cooperar com o “jogo”, respeitando o silêncio dos pais. Percebem que o assunto é melindroso e adoptam uma postura protectora: se os pais não falam, elas também não. Este sofrimento solitário pode traduzir-se em reacções muito diferentes:

- Há crianças que se portam excepcionalmente bem, achando que detêm alguma culpa nesta desgraça;
- Outras manifestam a sua tristeza através de “dores de barriga”, birras inesperadas ou resistência à escola;
- Algumas crianças tentam “proteger” o progenitor que é visto como mais fraco – o que chora mais, o que foi traído, ou o que se mostra mais abatido com a separação.
- Também há crianças que “fogem” do assunto como quem foge do monstro papão.

Quanto mais novos forem os filhos, maior a necessidade de sentirem a segurança das decisões dos pais. Daí que seja importante contar-lhes as mudanças que aí vêm. Cabe aos pais tentarem antecipar estas dúvidas.

Mesmo nos casos de divórcios litigiosos ou conflituosos, os pais devem fazer um esforço para que esta hostilidade não tenha os filhos por espectadores. Decidir a nova situação familiar - custódia, visitas, apoio financeiro, etc. - não pode ser pretexto para mais discussões.
Pelo contrário, a nova rotina familiar deve ser apresentada à criança serenamente para que esta sinta alguma segurança e confiança na sua nova vida.

São, ainda, de evitar comportamentos que envolvam os filhos no processo de divórcio, como ter discussões à frente deles ou usá-los como “arma” nas zangas.
Para marcar bem a distinção entre o que se passa na vida de casal e o que acontece entre pais e filhos, não se pode criticar a outra figura parental em frente à criança, utilizá-la como tema de discussão entre pai e mãe ou recorrer a comparações do género "a mãe gosta mais de ti do que o pai porque ele é que se foi embora". Afirmações deste género, vão futuramente levar a criança anão querer estar com o progenitor que é visto por ele como o rejeitante, o que pôs fim ao casamento. O respeito entre os ex-cônjuges
é essencial para a manutenção do bem-estar dos filhos.
As crianças devem também ser esclarecidas acerca do facto do processo de divórcio ser permanente, de forma a não alimentarem a fantasia de uma reconciliação. Logo, o casal só deve ter esta conversa com as crianças quando o divórcio é, para eles próprios,
uma situação irreversível, quando a decisão está definitivamente tomada. Os pais devem igualmente, deixar claro que ser filho de pais separados não é motivo de vergonha ou embaraço e que estão sempre disponíveis para apoiar os filhos no sentido de superarem as dificuldades inerentes à sua adaptação a uma nova situação familiar.

Esta conversa (ou estas conversas…) deve(m) servir para lembrar às crianças que ELAS NÃO TÊM CULPA NENHUMA do que está a acontecer.
Garantir às crianças que os dois vão continuar a acompanhá-las é  fundamental. Mais do que nunca é importante assegurar-lhes que ambos vão marcar presença nas suas rotinas e nas diferentes e actividades que compõem as suas vidas: escola, actividades de tempos livres, idas ao médico, mas também as refeições, a hora do deitar e o tempo em frente à televisão.

O facto de os pais já não conseguirem viver juntos não deve implicar que os filhos percam o contacto regular com qualquer um deles, já que isso prejudicaria o seu desenvolvimento.

O pai e a mãe fazem parte do património da criança. Quando um dos progenitores dificulta ou impede o contacto com o outro está seriamente a prejudicar a criança e o seu bem-estar futuro. Do mesmo modo a criança tem direito à sua família alargada (avós, tios, primos) maternos e paternos, pelo que tudo deve ser feito para que estes laços não se percam com a mudança.
Sintetizando, eis alguns conselhos para falar de divórcio com os filhos:
- Explique ao seu filho, que o pai e a mãe já não podem ou não desejam viver juntos, e que a partir de agora, viverão em casas diferentes.

- Fale com seus filhos da realidade da separação, tendo o cuidado de não culpar a ninguém.
- Assegure repetidamente aos seus filhos que ambos pais, continuam a amá-los da mesma e que ele será visitado pelo pai ou a mãe que não ficar com a sua custódia. 
- Mantenham constantes ao máximo as rotinas habituais das criança : domicílio, ambiente, relações com os pais, colégio, horários, amigos, etc. 
- Assegure aos seus filhos que eles não têm nenhuma responsabilidade pelo que ocorreu, pelo divórcio. Eles não têm culpa.
- Explique claramente que o divórcio é definitivo. Que não existe a possibilidade de voltar atrás.
- Trate de proteger as opiniões positivas que seu filho tem de ambos pais.
- Facilite a relação do seu filho com o progenitor, sendo flexível nos horários, etc.
- Trate com o progenitor que não teve a custódia, tudo relacionado com a educação, saúde, etc. do seu filho, e não use a criança como mensageiro.
È importante que os pais nãos e esqueçam que no divórcio, o conflito é conjugal e não parental, e que quando se estão a separar se estão a separar do cônjuge e não dos filhos.

M. Jesus Candeias, Psicóloga clínica e Psicoterapeuta.

jesuscandeias@gmail.com

Socorro !!! Tenho um Adoescente em casa!!!



(Entrevista cedida pela Dra. Maria de Jesus Candeias à Revista Activa, Junho 2014.) 

Socorro! Tenho um adolescente em casa!

Afinal , o que mais preocupa os pais de adolescentes? É assim tão complicado ter um filho nos ‘teens’? Pedimos a algumas mães que nos expusessem as suas maiores angústias, e a uma psicóloga que respondesse.

A adolescência é a idade dos namoros, das saídas, das respostas parvas, das míni saias... É preciso entrar em pânico ou estamos a fazer um bom trabalho? Maria de Jesus Candeias, psicóloga clínica e diretora da clínica ‘Crescer’, respondeu a várias perguntas e explicou porque é que, neste caso, todas as mães deviam ser... mães adolescentes.

- A adolescência é mesmo uma fase complicada?
Nem sempre. A adolescência é um processo normal, com vários desafios que os jovens precisam de correr, mas não é necessariamente um período perturbado.

- O mundo está mesmo mais perigoso?
Acho que há dois lados: a liberdade dos jovens aumentou o acesso a muitos perigos, mas também noto que há uma grande dramatização da realidade. Há coisas que passam como se fossem realidade mas são apenas situações pontuais. Portanto, temos de ter os cuidados básicos mas sem exagerar.

- 13 anos é demasiado novo para sair à noite?
É. Os pais têm de manter a autoridade até ao limite, e os jovens só são responsáveis por si próprios aos 18 anos. Sei que há muitos jovens a sair com 13 anos, mas para mim é impensável deixar alguém sair antes dos 16. Os pais têm de ter consciência de que estes limites não são impostos por acaso: uma criança com 13 anos ainda não se sabe defender. E os pais têm de perceber que são responsáveis pelos filhos, mesmos que eles protestem. Claro que os adolescentes também protestam mais quando sentem que há margem para isso... Portanto, os pais devem ir estabelecendo metas progressivas de conquista de liberdade e confiança.

Devo ir buscá-lo à discoteca?
Nas primeiras vezes. Os pais devem assegurar-se de que eles voltam em segurança para casa. Têm de saber como vão, com quem vão, como voltam. Conhecer os amigos é muito importante. É normal que os jovens não gostem que os pais os vão buscar, por isso nas primeiras saídas pode-se combinar com eles algum lugar de encontro, por exemplo. Porque eles dizem que não gostam mas também se sentem protegidos. Depois gradualmente pode-se deixá-los vir pelos seus próprios meios, se se vir que merecem confiança e cumprem os horários de entrada.

- Devem ter mesada?
Acho que sim. A mesada é muito importante no sentido da responsabilização e de ensinar a criança e depois o adolescente a fazer a sua gestão e a tornar-se autónomo, mas a quantia deve variar em função da idade, das possibilidades da família e daquilo que o adolescente precisa de gastar por mês. Dizer ‘dou-lhe 20 euros porque sim’, é irrealista e não vai ensiná-lo a gerir nada. Claro que dar-lhe dinheiro a mais que lhe permita comprar tudo o que quer também não vai ensiná-lo a poupar, a fazer escolhas, a perceber que para ter algumas coisas não pode ter outras.

- As notas da minha filha baixaram muito porque anda demasiado ocupada com os namorados. O que é que posso fazer?
Isso é absolutamente normal. Os pais stressam imenso quando as notas baixam, mas têm de perceber que é uma fase absolutamente natural e que o adolescente tem nessa altura mais com que se preocupar... Os pais não devem dramatizar, porque, se não se fizer um grande drama, há ali um ano ou dois em baixo mas depois as coisas normalizam. Se der demasiada importância à situação, isto pode resultar num problema difícil de resolver.

- Vi a minha filha beijar um rapaz. Devo contar ao meu marido ou não?
Ainda temos muitos preconceitos em relação à sexualidade das raparigas. Se for um rapaz, achamos que faz muito bem e que já está um homenzinho, se é uma rapariga ficamos em pânico. Acho que não há mal nenhum em partilhar com o marido o desenvolvimento de um filho – mas se já se sabe que isso vai criar tensão, a própria mãe tem de gerir isso. Aliás, não há nada que possa fazer...

- Devo levá-la ao ginecologista?
A mãe deve marcar uma consulta e perguntar à filha: queres que a mãe vá contigo ou preferes ir sozinha? É importante explicar-lhe que tal não servirá necessariamente para iniciar a sua vida sexual mas para ver se está tudo bem. Além dos ginecologistas também há consultas de apoio nos centros de saúde com técnicos que falam com eles mais à vontade. Portanto, não precisam de ser os pais a ter estas conversas com os filhos, mas podem encaminhá-los. Se bem que hoje em dia os jovens têm muito mais acesso à informação.

- É possível educá-los para resistir ao bullying?
Educá-los para resistir é difícil, porque as vítimas de bullying têm características muito próprias ligadas à timidez, ao medo, à falta de autoestima, que as levam a estar nestas situações. Não se pode dizer-lhes ‘reajam’ ou ‘não tenham medo’ ou ‘não ligues’, porque é óbvio que a natureza deles não os autoriza a fazê-lo. Portanto, é importante estar atento ao comportamento deles, dizer-lhes que essas situações não acontecem só a eles, e alertá-los para pedirem ajuda se tiverem algum problema, porque o segredo e a vergonha impedem-nos muitas vezes de serem auxiliados.

- Como afastá-los das más influências?
Geralmente, os jovens procuram os seus iguais. Portanto, eles procuram pessoas com as quais se identifiquem e se sintam bem. Ou eles próprios se sentem à margem na família e procuram alguém nas mesmas condições, ou vão escolher amigos com o mesmo tipo de valores. Os jovens procuram-se segundo uma atração pelo mesmo. Se um jovem for muito estruturado, procura pessoas igualmente sólidas. Se está menos estruturado ou tem curiosidade por outro tipo de comportamentos, irá procurar pessoas que depois podem potenciar situações menos saudáveis... Mas ele é que fará a sua escolha.

- A minha filha de 15 anos teima em usar saias mesmo curtas. Faço o quê?
Nada. A adolescência passa por essa exibição do corpo e o assumir da sexualidade. Elas precisam de se sentir desejáveis, e de mostrar que já não são crianças. Novamente, temos dificuldade em lidar com a sexualidade dos jovens, principalmente das raparigas. E novamente, temos de as respeitar e recordar a adolescente que fomos. O problema dos adultos é que muitas vezes se esquecem da sua própria experiência de juventude... Ora os filhos têm de passar pelos mesmos processos, embora os tempos sejam outros. E os pais deviam recordar essa experiência para poderem ser, olhe, pais adolescentes (risos).

- A prevenção funciona, ou por mais que se avise, eles vão sempre fazer o que os amigos fazem, por mais estúpido ou perigoso que seja?
É possível resistir à pressão de grupo, mas essa pressão pode tornar-se bastante pesada. Se o jovem estiver num grupo saudável, terá menos problemas porque as opções de cada um serão respeitadas. Mas grupos mais problemáticos acabam por exercer mais pressão. Os pais podem falar disto com os filhos, e é importante que os ajudem a não ter vergonha de ser quem são. Um jovem com autoestima facilmente ultrapassa estas questões, mas se for mais inseguro pode ter mais dificuldades.

- Com a mania que estão a crescer, cada vez mais se esquivam a um contacto físico, um abraço, um beijo, mesmo o mais básico. Devemos insistir ou esquecer?
Devemos respeitar e dar-lhes espaço. Há um período em que eles precisam de mostrar que já não são bebés e querem demarcar-se dos comportamentos infantis. Durante esse período, não devemos insistir no contacto físico. Quando eles forem – ou se sentirem – mais adultos, voltarão àquilo que são naturalmente: afetuosos ou menos afetuosos...


CAIXA
Como não perder o controlo das vidas deles?
“Mas a ideia é mesmo essa: os filhos não são pertença dos pais...”, nota Maria de Jesus Candeias. “Os filhos têm uma vida própria, uma luta própria, objetivos próprios, não estão cá para fazerem o que nós queremos que eles façam, e isto muitas vezes é confundido com pôr em causa a autoridade dos pais. Muitos pais vivem isto como uma afronta, quando se trata apenas de os filhos terem opiniões diferentes. Ou então, os pais veem como uma traição: agora gostam mais dos amigos do que dos pais... Isto gera muitos mal-entendidos. Mas um jovem que discute com os pais e luta pela sua autonomia é um jovem saudável.”

CAIXA
Se eu lhe contar os erros que cometi, ele fará o mesmo?
“Ele fará o que precisar de fazer. As mães têm de fazer o luto da criança que os filhos foram e perceber que têm em mãos o fantástico desafio de transformar aquelas pessoas em adultos saudáveis. Mas para isso os jovens têm de viver a sua vida e cometer muitos erros. Os pais tentam muitas vezes poupar aos filhos erros que eles próprios fizeram, mas as coisas não funcionam assim. O filho terá de passar por tudo ele mesmo, tem de aprender a viver por conta própria, tem de aprender a pensar sozinho e ganhar um sentido de exigência próprio e interiorizado, sem estar a fazer alguma coisa porque outra pessoa acha que ele deve.”


Entrevista cedida pela Dra. Maria de Jesus Candeias à Revista Activa, Junho 2014

quarta-feira, setembro 20, 2017

O Meu Filho Não me Respeita!!!


Entrevista cedida por Maria de Jesus Candeias, Psicóloga clínica e Psicoterapeuta, para o Portal Sapo Saúde , Setembro 2012


  O que se entende por desrespeitar os pais? Existem limites? Quais?

 É comum que, durante a etapa da adolescência, surjam mudanças significativas nas relações familiares. 
Em muitos casos, essas mudanças fazem-se acompanhar de um aumento de conflitos entre pais e filhos.
A adolescência traz consigo a necessidade de questionar, de descobrir, de redirecionar. Passa a haver a necessidade de rever as regras, os valores e até as crenças familiares.  
Um/a filho/a mais instável e irritado/a pode tão somente estar a manifestar, à sua maneira, a necessidade de diferenciação das figuras parentais, em busca da sua própria identidade.
É comum os jovens manifestarem ataques de raiva, isolarem-se em quartos fechados, buscarem apoio nos avós ou começarem a apresentar comportamentos desafiadores ou de risco.

Os adolescentes desafiam o sistema familiar porque essa é a natureza do desenvolvimento, nem sempre se trata de uma questão de desrespeito! 
Famílias com fronteiras mais flexíveis permitem que o adolescente se vá experimentando em diferentes territórios, aproximando-se quando se sente inseguro e afastando-se quando necessita de testar a sua independência.

Se pelo contrario, os pais, são rígidos e inflexíveis,  não vão facilitando  a separação e autonomia do jovem, os jovens começam a usar meios cada vez mais extremos para tentar impor a sua precária autoridade ou para marcar distâncias, incluindo a utilização de violência tanto com os seus irmãos mais novos como com os seus progenitores.
 A resposta de que necessitam, por parte dos pais/cuidadores deverá, no entanto, ser promotora do      reequilíbrio emocional. 
A clareza das regras e limites é essencial para assegurar estes 3 grandes pilares da vida do adolescente.

Assim, nesta fase, é fundamental que os pais  apostem  num aumento da flexibilidade das fronteiras e nas forma de expressar a sua  autoridade, de forma a manter a harmonia familiar. È essencial distinguir e não confundir entre os pais como autoridade de pais autoritários.

O respeito e os limites estão ultrapassados quando entramos no campo da violência familiar.

A violência filio-parental, é um tipo de violência familiar e refere-se a comportamentos de violência física (agressões, empurrões, atirar objectos) verbal (insultos repetidos, ameaças) ou não verbal (ameaças de agressão, destruição de objectos apreciados) realizados de maneira repetida em relação a um ou ambos os progenitores, ou aos adultos que ocupam o seu lugar,

Este tipo de violência origina um enorme sofrimento e stress nas famílias, ao mesmo tempo que podem representar o inicio de uma “carreira de agressor” nos jovens que perpetuam este tipo de violência, necessitando por isso de uma resposta específica por parte dos profissionais de saúde mental.

  Que tipos de casos entre mau relacionamente entre pais e filhos costuma receber nas suas consultas?


Existem pedidos muito diversos e que vão desde os pequenos conflitos familiares entre pais filhos, pais que não se sentem respeitados e que não conseguem fazer com que os filhos cumpram as suas regras, muitos pais com dificuldades em lidar com s processos de autonomia na adolescência dos seus filhos, aos casos de violência entre pais e filhos e de referir que são cada vez mais frequentes.

Por que muitos pais não conseguem ganhar respeito dos seus filhos? Quais os quadros familiares associados a este tipo de relação?

As dificuldades dos pais em ganharem o respeito dos filhos estão fortemente associadas a  praticas parentais pouco adequadas às necessidades dos filhos.
Os conflitos, os problemas, e a Violência Filio-Parental são resultado de uma interacção disfuncional entre os diferentes membros do sistema familiar em que a psicopatologia aparece como expressão dessa disfuncionalidade. Esta violência tem um sentido e uma função dentro da família que deve ser entendido e decifrado.
 Podemos apontar os seguintes factores que favorecem o aparecimento da violência filio parental:
·                Experiência familiar prévia de utilização da violência para resolução de conflitos;
·                Violência familiar generalizada: todos contra todos;
·                Pais não normativos “democráticos”, excessivamente permissivos, que gostam dos seus filhos façam estes o que fizerem;
·                Pais superprotectores por razões diversas: filho muito desejado, tardio, frágil ou adoptado, dispostos a satisfazerem todos os desejos dos seus filhos.
·                Relação “passional”, “fusional” entre um dos progenitores e o filho;
·                Violência prévia dos pais entre si ou sobre o filho;
·                Conflito intenso entre os pais;
·                Triangulação do filho.
·                Pais insatisfeitos com os seus papeis ou verbalizações de que as suas vidas são vazias;
·                Inconsistência e desacordo entre os pais na educação dos filhos;
·                Severidade desproporcionada dos castigos e dos actos dos filhos;
·                Excessivo criticismo e intrusão por parte dos pais;
  • Problemas de hierarquia: pais que renunciam ao seu papel e recusam estabelecerem normas;
  • A ausência de uma clara definição hierárquica é a principal característica do funcionamento destas famílias. A dificuldade em estabelecer normas e limites são os pontos mais evidentes nestas famílias quando procuram ajuda.


Nestas famílias é frequente encontrarmos situações em que um ou às vezes os dois progenitores, abdicaram do seu papel parental, tendo deixado de se comportar como pais.

 Quais são os pensamentos/sentimentos mais comuns nos pais perante este tipo de problema com os filhos?


A vergonha, a sensação de fracasso enquanto pais, a desilusão e o sentimento de impotência face ao problema são sentimentos comuns nestes pais.

     Como devem reagir os pais quando os filhos os agridem tanto psicologica e/ou fisicamente?


Quando chegamos a este ponto é muito difícil os pais, por si mesmos, resolverem ou reverterem a situação. Muita coisa se danificou dentro de uns e outros, as formas de relacionamento dentro da família estão “doentes”  e a ajuda profissional nestes casos parece-me essencial.
Porém , importa referir que o uso da força pelos pais, ou a restituição  da ordem ou do respeito pelos mesmos meios ( a violência  verbal e física) não é de todo o caminho a seguir.
A resposta de que necessitam, por parte dos pais/cuidadores deverá, no entanto, ser promotora do reequilíbrio emocional. 
O adolescente/criança ainda não é adulto, pelo que necessita de contar ainda com uma família que lhe garanta as necessidades de afecto, de segurança e de estrutura. 
Clarificar e definir regras e limites é essencial para a organização emocional do jovem.

 De referir porém, que com ajuda especializada, estes problemas resolvem-se e a família pode reaprender a viver em harmonia. 

 Por que muitos pais suportam ser mal tratados pelos seus filhos?

Nas famílias com Violência Filio-Parental a imagem familiar, tanto dos pais como dos filhos encontra-se detiorada.  A sensação de fracasso dos pais na educação dos filhos, a vergonha que implica ser agredido por um filho, impõe a necessidade de protecção da imagem familiar, o que faz com que as famílias afectadas muitas vezes subestimem a agressão e minimizem os seus efeitos, mesmo quando são públicos e evidentes. A deterioração da situação familiar faz com que a família adopte comportamentos de forma a apresentar uma imagem oposta, potenciando assim o Mito da Paz e da Harmonia Familiar, muito frequente nestas famílias, mesmo quando no exterior já se sabe. Para ocultar o que está acontecendo vai-se construindo um segredo familiar: começa a evitar-se determinados temas, a deixar de falar de situações e comportamentos que poderão por em causa o Mito.
A negação da violência filio-parental , por parte dos pais,  é praticamente uma norma e pode chegar a extremos graves: toleram-se níveis elevados de agressividade durante um período prolongado de tempo antes de se tomarem medidas .

Existem muitos filhos que culpam os seus pais pela falta de sucesso na sua vida e consideram que é obrigação dos pais ajudá-los incondicionalmente.
Como devem os pais contrariar esta pressão dos filhos?


Os filhos pedem… cabe aos pais dizer tranquilamente, sem culpas, que não podem! Os filhos fazem pressão, quando sabem que ao fim de algum tempo de pressão conseguem alcançar os seus objectivos. Quando perceberem quer não conseguem nada com pressão, acabam por abandonar essa estratégia. Assim sendo, a consistência e coerência das regras, pelos pais é fundamental! Não podem dizer que não a algo, e depois sim, sem nenhuma razão justificativa para essa mudança de opinião. E não devem sentir-se culpados por dizer não aos filhos! Os pais podem até não ter feito tudo como deviam, mas fizeram aquilo que sabiam e acharam melhor, mas a partir de certa altura são os filhos, agora jovens adultos, que passam a ser responsáveis por si próprios.
A culpa que os pais  possam eventualmente ter, por ter falhado algures, podem admiti-la, mas com a consciência de que não a podem corrigir porque o tempo não volta atrás, e principalmente que não têm de continuar a pagar essa culpa sob  chantagem e  cedências à pressão dos filhos.

A incapacidade de pais e filhos comunicarem, ou porque não falam a mesma linguagem, ou porque não respeitam as crenças uns dos outros, entre outros, podem algum dia ser ultrapassados?

Sim, sem dúvida que se podem ultrapassar essas diferenças. A terapia familiar é fundamental no restabelecimento da harmonia familiar. Numa família, não têm de pensar todos o mesmo, mas têm sobretudo de falar a mesma língua: a do respeito e admiração pela individualidade de cada um.


Entrevista cedida por Maria de Jesus Candeias, Psicóloga clínica e Psicoterapeuta, para o Portal Sapo Saúde , Setembro 2012