"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

domingo

Como podem os pais ajudar para minimizar o sofrimento da criança face ao divórcio ?

As crianças beneficiam de uma coparentalidade positiva 

A Parentalidade Positiva define-se como um “comportamento parental baseado no melhor interesse da criança e que assegura a satisfação das principais necessidades das crianças e a sua capacitação, sem violência, proporcionando-lhe o reconhecimento e a orientação necessários, o que implica a fixação de limites ao seu comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento”. (Recomendação do Conselho da Europa, Lisboa 2006)

 Quais os alicerces de uma boa parentalidade?

 Um dos grandes desafios que se apresentam aos pais, na situação de separação ou divórcio, é a relação que se estabelece entre eles no que concerne à educação e vida dos filhos.

Saber comunicar, organizar horários para dividir os tempos com os filhos, que regras e limites aplicar, a melhor forma de os acompanharem sem atropelos um ao outro, sempre atentos à satisfação das necessidades das crianças, serão seguramente alicerces para uma boa parentalidade.

O fim da relação conjugal não tem de significar o fim da relação parental, sendo apenas necessário encontrar e partilhar estratégias para que as coisas funcionem. É prioritário, no sentido do bem-estar dos filhos, que os pais, apesar do turbilhão de emoções por que possam estar a passar, procurem reorganizar-se emocional e mentalmente, cientes de que as crianças só têm a beneficiar se assim for.

As crianças adaptam-se facilmente a novas situações, mas é necessário proporcionar-lhes um ambiente seguro e estável, fazendo-as sentir amadas e protegidas por ambos os pais. 

 As nossas recomendações

 Pais e mães consideram que os filhos devem passar o tempo que têm disponível com eles e menos com os cuidadores externos, mas é igualmente importante que a criança partilhe também o seu tempo com membros da família alargada (avós. tios, primos) sem que isto seja visto como negativo para a mãe/pai. Toda a família que, antes do divórcio, mantinha contato com a criança e com quem esta desenvolvia uma relação afectiva, deve continuar presente na sua vida por constituir um valioso apoio.

Importa também reter que se pretendemos uma parentalidade positiva, não é permitido o progenitor/família denegrir a imagem do outro perante a criança.

 A comunicação e a cooperação são fundamentais para o planeamento e organização de actividades, bem como a existência de regras e limites, o que transmite maior segurança à criança, que está constantemente a testá-los.

Embora cada progenitor possua uma forma de educar (mais rígida, mais flexível, ponderada), na medida em que todos somos diferentes, é importante que procurem definir que crenças e valores pretendem, em conjunto, transmitir aos seus filhos, delineando assim o percurso a seguir.

As ordens não devem ser contraditórias, sendo fundamental a coordenação entre pai e mãe, que devem também estar cientes da importância do elogio à criança tanto quanto da responsabilização pelo não cumprimento da ordem.

Realçando de novo o papel da comunicação, há situações que exigem mais do que um simples sms. Por exemplo, se acontece que no fim de semana, que cabe à mãe, esta tem que trabalhar, deve contatar o pai diretamente, explicando o problema na expectativa da sua resolução (caso ele esteja disponível) ou, não o estando, de ter de procurar outra alternativa segura. São situações deste tipo que não podem ser encaradas como má vontade, por parte do outro, sob pena de se entrar em desnecessários conflitos.

Para os filhos, é muito salutar verem os pais felizes, sendo essa uma forte razão para o estarem também.

Cada pai/mãe deve dar o seu melhor e procurar respeitar a opinião do outro, mesmo que não concorde, pois esta a trabalhar na construção de valores e princípios que transmite aos filhos.

 É importante que cada progenitor tenha consciência que o outro é um bem precioso na vida dos seus filhos e que contribui para o seu desenvolvimento e crescimento.

Podemos sempre pensar que somos melhor que o outro, mas o que importa interiorizar, acima de tudo, é que a criança precisa dos dois e vai absorver os conhecimentos, os saberes e as experiências diferentes de cada um, enriquecendo com a diversidade.

Outro aspeto a focar é permitir que a criança leve consigo os seus pertences, se sentir necessidade, para a casa do pai ou da mãe, independentemente de quem os comprou. Será para ela mais confortável e dar-lhe-á um sentimento de maior segurança.

A planificação parental deve ser reajustada sempre que surjam alterações das necessidades, horários e mudanças familiares. As crianças devem ter tanto tempo de rotina estruturado como tempo livre com cada um deles, pai ou mãe.

O que provoca maior dor nas crianças não é propriamente o divórcio, mas sim os conflitos e discussões entre os pais que devem sempre ser evitados na sua presença.

O nosso conselho...

Sabendo que o exercício da parentalidade é uma experiência gratificante, mas também muito exigente e envolvente, quando os pais tomam a decisão de se separar/divorciar e se confrontam com dificuldades de comunicação, mas querendo, ainda assim, partilhar uma parentalidade positiva de forma a protegerem os seus filhos, podem recorrer à ajuda de um profissional, de um mediador familiar ou de um psicólogo que possa ajustar um plano de parentalidade às características dos progenitores, da criança e dos familiares e ainda a outros suportes em casos de contextos sociais e económicos difíceis.

A coparentalidade, exercida de forma positiva, ao envolver apoio e comprometimento mútuo, pode influenciar directamente a ligação pais/criança, criando vínculos mais fortes.

Por Dra. Catarina Policarpo, Psicóloga clínica e Mediadora familiar.