"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA" João dos Santos

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Como lidar com os filhos Adolescentes??

Entrevista cedida pela Dra. Maria de Jesus Candeias à Revista Activa, Junho 2014. 

Socorro! Tenho um adolescente em casa!

Afinal , o que mais preocupa os pais de adolescentes? É assim tão complicado ter um filho nos ‘teens’? Pedimos a algumas mães que nos expusessem as suas maiores angústias, e a uma psicóloga que respondesse.

A adolescência é a idade dos namoros, das saídas, das respostas parvas, das míni saias... É preciso entrar em pânico ou estamos a fazer um bom trabalho? Maria de Jesus Candeias, psicóloga clínica e diretora da clínica ‘Crescer’, respondeu a várias perguntas e explicou porque é que, neste caso, todas as mães deviam ser... mães adolescentes.

- A adolescência é mesmo uma fase complicada?
Nem sempre. A adolescência é um processo normal, com vários desafios que os jovens precisam de correr, mas não é necessariamente um período perturbado.

- O mundo está mesmo mais perigoso?
Acho que há dois lados: a liberdade dos jovens aumentou o acesso a muitos perigos, mas também noto que há uma grande dramatização da realidade. Há coisas que passam como se fossem realidade mas são apenas situações pontuais. Portanto, temos de ter os cuidados básicos mas sem exagerar.

- 13 anos é demasiado novo para sair à noite?
É. Os pais têm de manter a autoridade até ao limite, e os jovens só são responsáveis por si próprios aos 18 anos. Sei que há muitos jovens a sair com 13 anos, mas para mim é impensável deixar alguém sair antes dos 16. Os pais têm de ter consciência de que estes limites não são impostos por acaso: uma criança com 13 anos ainda não se sabe defender. E os pais têm de perceber que são responsáveis pelos filhos, mesmos que eles protestem. Claro que os adolescentes também protestam mais quando sentem que há margem para isso... Portanto, os pais devem ir estabelecendo metas progressivas de conquista de liberdade e confiança.

Devo ir buscá-lo à discoteca?
Nas primeiras vezes. Os pais devem assegurar-se de que eles voltam em segurança para casa. Têm de saber como vão, com quem vão, como voltam. Conhecer os amigos é muito importante. É normal que os jovens não gostem que os pais os vão buscar, por isso nas primeiras saídas pode-se combinar com eles algum lugar de encontro, por exemplo. Porque eles dizem que não gostam mas também se sentem protegidos. Depois gradualmente pode-se deixá-los vir pelos seus próprios meios, se se vir que merecem confiança e cumprem os horários de entrada.

- Devem ter mesada?
Acho que sim. A mesada é muito importante no sentido da responsabilização e de ensinar a criança e depois o adolescente a fazer a sua gestão e a tornar-se autónomo, mas a quantia deve variar em função da idade, das possibilidades da família e daquilo que o adolescente precisa de gastar por mês. Dizer ‘dou-lhe 20 euros porque sim’, é irrealista e não vai ensiná-lo a gerir nada. Claro que dar-lhe dinheiro a mais que lhe permita comprar tudo o que quer também não vai ensiná-lo a poupar, a fazer escolhas, a perceber que para ter algumas coisas não pode ter outras.

 - As notas da minha filha baixaram muito porque anda demasiado ocupada com os namorados. O que é que posso fazer?
Isso é absolutamente normal. Os pais stressam imenso quando as notas baixam, mas têm de perceber que é uma fase absolutamente natural e que o adolescente tem nessa altura mais com que se preocupar... Os pais não devem dramatizar, porque, se não se fizer um grande drama, há ali um ano ou dois em baixo mas depois as coisas normalizam. Se der demasiada importância à situação, isto pode resultar num problema difícil de resolver.

- Vi a minha filha beijar um rapaz. Devo contar ao meu marido ou não?
Ainda temos muitos preconceitos em relação à sexualidade das raparigas. Se for um rapaz, achamos que faz muito bem e que já está um homenzinho, se é uma rapariga ficamos em pânico. Acho que não há mal nenhum em partilhar com o marido o desenvolvimento de um filho – mas se já se sabe que isso vai criar tensão, a própria mãe tem de gerir isso. Aliás, não há nada que possa fazer...

- Devo levá-la ao ginecologista?
A mãe deve marcar uma consulta e perguntar à filha: queres que a mãe vá contigo ou preferes ir sozinha? É importante explicar-lhe que tal não servirá necessariamente para iniciar a sua vida sexual mas para ver se está tudo bem. Além dos ginecologistas também há consultas de apoio nos centros de saúde com técnicos que falam com eles mais à vontade. Portanto, não precisam de ser os pais a ter estas conversas com os filhos, mas podem encaminhá-los. Se bem que hoje em dia os jovens têm muito mais acesso à informação.

 - É possível educá-los para resistir ao bullying?
Educá-los para resistir é difícil, porque as vítimas de bullying têm características muito próprias ligadas à timidez, ao medo, à falta de autoestima, que as levam a estar nestas situações. Não se pode dizer-lhes ‘reajam’ ou ‘não tenham medo’ ou ‘não ligues’, porque é óbvio que a natureza deles não os autoriza a fazê-lo. Portanto, é importante estar atento ao comportamento deles, dizer-lhes que essas situações não acontecem só a eles, e alertá-los para pedirem ajuda se tiverem algum problema, porque o segredo e a vergonha impedem-nos muitas vezes de serem auxiliados.

- Como afastá-los das más influências?
Geralmente, os jovens procuram os seus iguais. Portanto, eles procuram pessoas com as quais se identifiquem e se sintam bem. Ou eles próprios se sentem à margem na família e procuram alguém nas mesmas condições, ou vão escolher amigos com o mesmo tipo de valores. Os jovens procuram-se segundo uma atração pelo mesmo. Se um jovem for muito estruturado, procura pessoas igualmente sólidas. Se está menos estruturado ou tem curiosidade por outro tipo de comportamentos, irá procurar pessoas que depois podem potenciar situações menos saudáveis... Mas ele é que fará a sua escolha.

- A minha filha de 15 anos teima em usar saias mesmo curtas. Faço o quê?
Nada. A adolescência passa por essa exibição do corpo e o assumir da sexualidade. Elas precisam de se sentir desejáveis, e de mostrar que já não são crianças. Novamente, temos dificuldade em lidar com a sexualidade dos jovens, principalmente das raparigas. E novamente, temos de as respeitar e recordar a adolescente que fomos. O problema dos adultos é que muitas vezes se esquecem da sua própria experiência de juventude...  Ora os filhos têm de passar pelos mesmos processos, embora os tempos sejam outros. E os pais deviam recordar essa experiência para poderem ser, olhe, pais adolescentes (risos).

 - A prevenção funciona, ou por mais que se avise, eles vão sempre fazer o que os amigos fazem, por mais estúpido ou perigoso que seja?
É possível resistir à pressão de grupo, mas essa pressão pode tornar-se bastante pesada. Se o jovem estiver num grupo saudável, terá menos problemas porque as opções de cada um serão respeitadas. Mas grupos mais problemáticos acabam por exercer mais pressão. Os pais podem falar disto com os filhos, e é importante que os ajudem a não ter vergonha de ser quem são. Um jovem com autoestima facilmente ultrapassa estas questões, mas se for mais inseguro pode ter mais dificuldades.

 - Com a mania que estão a crescer, cada vez mais se esquivam a um contacto físico, um abraço, um beijo, mesmo o mais básico. Devemos insistir ou esquecer?
Devemos respeitar e dar-lhes espaço. Há um período em que eles precisam de mostrar que já não são bebés e querem demarcar-se dos comportamentos infantis. Durante esse período, não devemos insistir no contacto físico. Quando eles forem – ou se sentirem – mais adultos, voltarão àquilo que são naturalmente: afetuosos ou menos afetuosos...
  

CAIXA
Como não perder o controlo das vidas deles?
“Mas a ideia é mesmo essa: os filhos não são pertença dos pais...”, nota Maria de Jesus Candeias. “Os filhos têm uma vida própria, uma luta própria, objetivos próprios, não estão cá para fazerem o que nós queremos que eles façam, e isto muitas vezes é confundido com pôr em causa a autoridade dos pais. Muitos pais vivem isto como uma afronta, quando se trata apenas de os filhos terem opiniões diferentes. Ou então, os pais veem como uma traição: agora gostam mais dos amigos do que dos pais... Isto gera muitos mal-entendidos. Mas um jovem que discute com os pais e luta pela sua autonomia é um jovem saudável.”

CAIXA
Se eu lhe contar os erros que cometi, ele fará o mesmo?
“Ele fará o que precisar de fazer. As mães têm de fazer o luto da criança que os filhos foram e perceber que têm em mãos o fantástico desafio de transformar aquelas pessoas em adultos saudáveis. Mas para isso os jovens têm de viver a sua vida e cometer muitos erros. Os pais tentam muitas vezes poupar aos filhos erros que eles próprios fizeram, mas as coisas não funcionam assim. O filho terá de passar por tudo ele mesmo, tem de aprender a viver por conta própria, tem de aprender a pensar sozinho e ganhar um sentido de exigência próprio e interiorizado, sem estar a fazer alguma coisa porque outra pessoa acha que ele deve.”


 Entrevista cedida pela Dra. Maria de Jesus Candeias à Revista Activa, Junho 2014

terça-feira, 1 de Julho de 2014

A DOR NA PERDA DE UM FILHO


A perda de um filho é uma dor, a meu ver e pela minha prática clínica, dificilmente ultrapassável. Diria mesmo que é uma das perdas nas quais não é possível fazer um luto.
O que os pais fazem muitas vezes é encontrar estratégias para funcionar, levar a sua vida (os que o conseguem) mas emocionalmente a ferida continua aberta.

A perda de um filho é uma “ferida impossível de cicatrizar”.
E isto porque a perda de um filho é um acontecimento contra a lei e ordem natural da vida, e os pais que ao conceberem um filho vêem neles a sua continuidade, quando perdem um filho perdem parte de si também!

Importa distinguir, porém, a perda de um filho por morte ou por desaparecimento.

Ambas são perdas inultrapassáveis, porém os mecanismos psicológicos são diferentes numa e noutra perda.

Na morte de um filho, há um fim para aquele que parte. A dor é terrível, mas os pais podem velar, podem chorar, podem fazer a despedida e enfrentar a morte ou a partida do filho. Sabem o que lhe aconteceu, a perda é real, concreta. E Isto dá-lhes a oportunidade, e obriga-os, por mais doloroso que seja a enfrentar a realidade e como tal dá-lhes a possibilidade de fazerem esse luto e transformar essa dor.

Na perda de um filho por desaparecimento, o processo a nível mental é bem mais doloroso, porque aqui não é possível fechar o ciclo, fazer o luto, nem recomeçar uma nova vida. A vida dos pais fica suspensa. Não podem desistir, nem perder a esperança, porque não sabem o que aconteceu, e se a morte é real ou não. Se desistirem é como se estivessem a abandonar o filho, porque existe a hipótese mesmo que remota de que o filho pode estar vivo. Enquanto os pais não puderem “ver o corpo” do filho, e realmente confirmarem a perda, não conseguem parar este processo. Não podem desligar-se de um filho, “enterrá-lo”, fazer o luto, sem a certeza de que está vivo ou morto. Nestes casos, a vida dos pais fica suspensa numa procura permanente e ostensiva do filho. Nestes casos não é mesmo possível ultrapassar a perda.

A ajuda de técnicos especializados, psicólogos, psicoterapeutas, assim como os grupos de apoio com o mesmo tipo de dor, são fundamentais para ajudar os pais a fazer a sua caminhada na dor e a gerir de uma forma mais pacífica as suas emoções evitando desta forma a desorganização total destes pais.

Que tipo de sentimentos desperta esta situação na família?

O tipo de sentimentos que a perda de um filho desperta no seio da família depende de vários factores, tais como: o tipo de morte (morte súbita por acidente, morte por doença prolongada, suicídio, etc), ou desaparecimento; e depende também e obviamente do tipo de relações e proximidade entre os elementos da família.

De qualquer forma, uma forma mais global, a perda de um filho provoca sempre um desequilíbrio no sistema familiar.
A perda de um filho provoca sentimentos de raiva, culpa, tristeza, depressão, desejo de abandono da vida, que cada um dos elementos sente não só dentro de si, como projectam nos outros elementos da família, criando alguma tensão familiar.

Vários estudos apontam que grande percentagem de pais que perdem um filho acaba por se divorciar. Este aspecto pode não só ter a ver com as acusações recíprocas que podem ocorrer, mas também uma forma de fugir daquela realidade, do contexto onde existia um ser que agora não está mais presente. É como se a separação lhes permitisse apagar o passado e recomeçar de novo.

Um dos acontecimentos que se verifica nas famílias, é o silêncio, o vazio, a perda da capacidade de comunicação, não conseguem falar sobre o acontecimento, sobre o que sentem. Este isolamento provoca um grande sentimento de solidão e distanciamento entre os elementos da família numa fase em que mais do que nunca deveriam estar unidos.

Claro que este desligamento não é intencional, mas é muitas vezes uma forma de mostrarem aos restantes elementos da família que estão a conseguir ultrapassar, que não dói, com receio de despertarem a dor um nos outros. O que não é real, porque é inevitável que num processo de luto todos estejam a sofrer e mais saudável do que “abafar a dor” é exteriorizá-la, partilhá-la, porque aí quer pais quer irmãos, sabem que não estão sós na sua dor, que faz parte do processo, e poder-se-ão abrir e receber ajuda uns dos outros.

O desenvolvimento de sentimentos de culpa é inevitável?

Sim. È inevitável que todos se questionem, se ponham em causa, o que poderiam ter feito ou evitado que a situação acontecesse.

E obviamente que dependendo das circunstancias em que aconteceu a culpa é maior ou menor, e a pessoa consegue ou não ultrapassar a situação.

Mais uma vez, também aqui ajuda especializada é fundamental. Pois muitas vezes a interiorização da culpa pode dar origem a processos de auto-destruição: consumo abusivo de álcool, sobre medicação, entre outras.

No caso de uma família que perde um filho, o que acaba por acontecer aos restantes? Existe um desligamento do filho que fica?

Numa família com mais de um filho, a perda de um dos filhos, altera toda a dinâmica familiar e traz obviamente consequências para o filho que fica, porque inevitavelmente, os pais “perdidos na sua dor” acabam por ter pouca disponibilidade afectiva e emocional para dar atenção ao filho que fica.

No caso de desaparecimento de um filho este acontecimento é muito evidente, os pais tão absorvidos pela busca do filho que perderam, todas as suas forças e energias ficam canalizadas para o acontecimento, “esquecendo-se” um pouco das necessidades do filho que fica. E isto deixa muitas vezes marcas nos filhos que ficam, que por vezes sentem que não há espaço para eles no pensamento, nem na vida, nem no coração dos pais, colocam mesmo em causa o que representam para os pais, o que os pais sentem por eles, como se só irmão existisse no pensamento dos pais. Nestes processos, é fundamental que os pais tomem consciência deste facto para que consigam de alguma forma minimizar os seus efeitos. A presença de alguém da família, os avós por exemplo, presente no seio familiar, disponível para este filho que fica, pode também ajudar a minimizar, desta ausência afectiva dos pais.

Que tipo de consequência surgem em pais que perdem um filho?

A dor enorme produzida pela perda de um filho dificilmente ultrapassável conduz muitas vezes, se não houver ajuda de psicólogos ou psicoterapeutas a uma detiorização da saúde mental conduzindo a depressões profundas, a uma desistência da vida e por vezes a uma retirada total da realidade.

Em média quanto tempo poderão demorar a ultrapassar esta situação?

Como já referi a perda de um filho é uma ferida que é para toda a vida, porém é importante que embora emocionalmente a ferida continue por toda a vida, os pais consigam recomeçar a funcionar. NO fundo é importante que passado algum tempo, diria que entre os 6 meses e um ano após o incidente, os pais consigam retomar as suas rotinas diárias, o seu trabalho, a sua vida social.

Se isto não acontecer é importante pedir ajuda, porque significa que não estão a conseguir ultrapassar a dor e correm o risco de ficar “presos” nessa dor. Nestas condições, e se não houver ajuda, começam a surgir condições para que a doença mental se instale, e se inicie um processo de desorganização mental. È a entrada no chamado “Luto Patológico”.

A Esperança acaba por ser um mecanismo psicológico de refúgio?

Não diria que a esperança seja um espaço de refúgio, mas é aquilo que é possível a qualquer pai e a qualquer ser humano fazer quando não tem a certeza do que aconteceu.

Estatisticamente, quando um filho desaparece, a probabilidade de ele estar vivo, num outro qualquer lugar, é tão real e igual ou mesmo superior do que ele estar morto. Como tal, não é coerente internamente para qualquer pai, deixar de acreditar que não é possível encontrar o seu filho ou desistir de procurar, porque isto significa abandonar o seu filho, e este fenómeno vai contra os instintos paternais de protecção da sua cria. No fundo os pais continuam a lutar até chegarem a uma certeza.

Como vêem as crianças o desaparecimento de amigos da mesma idade? Pode criar algum trauma nas crianças?

As crianças têm uma maior flexibilidade na sua organização mental e há coisas de que ainda não têm muita consciência, entre elas a questão da morte.

Claro, que surgem na criança muitas questões, dúvidas, mas a sua capacidade de integração da realidade é relativa e portanto, ficam pensativas, fazem perguntas, ficam tristes, mas passado algum tempo, ultrapassam a situação sem qualquer trauma.

Que impacto têm casos como o desaparecimento de Maddie na sociedade? Que tipo de reacções cria nas pessoas? Nomeadamente medo nas crianças?

Penso que casos como Maddie nos fazem a todos pensar seriamente no assunto, no que sentiríamos enquanto pais na mesma situação, na maldade que existe no mundo, e como é que é possível estas coisas acontecerem. Desperta os nossos medos, traz ao cimo as nossas inseguranças, e faz-nos aumentar as nossas defesas.

As crianças também ouvem e se questionam, mas rapidamente esquecem e ultrapassam a situação. Os medos e as inseguranças só permanecem nas crianças se os adultos à sua volta também insistem em lhe passar a mensagem de um mundo assustador e de adultos que fazem mal às crianças e isto obviamente não é saudável para nenhuma criança. È fundamental que as crianças tenham uma imagem segura e tranquila do mundo à sua volta, e que tenham a certeza de que nada lhes acontece porque têm adultos suficientemente fortes e protectores à sua volta que os protegem das coisas más.

Muitas vezes os adultos tentam proteger as crianças alertando-as para os perigos e falando-lhes das coisas más para que elas tenham atenção e cuidado: Porém o que acontece é que a criança não tem capacidade para gerir estes aspectos internamente e vai desenvolver medos e vai crescer assustada, o que não é nada saudável numa criança.

Maria de Jesus Candeias

Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta

quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

Perturbações do Sono na Infância

 Existem vários problemas que podem afetar o sono das crianças, é preciso estar atento e ajuda-la a ultrapassá-los, pois têm consequências a nível emocional, social e no seu desempenho escolar.

Pesadelos

Os pesadelos são frequentes nas crianças de 2 ou 3 anos, na idade em que a fantasia é mais intensa e a criança ainda não percebe a diferença entre sonho e realidade.
É um sonho desagradável que pode surgir várias vezes durante a noite, dependendo da idade da criança, estão muitas vezes relacionados com acontecimentos diários, tais como, separação dos pais, nascimento de um irmão, mudança de escola, morte de um familiar ou até o facto de estar a dormir numa posição desconfortável.
Durante o dia podem aparecer novos medos, de animais, elevadores, ruídos estridentes e que são transportados para a noite como pesadelos.
A criança acorda quando está a ter um pesadelo, na maioria das vezes consegue lembrar-se e falar do que se passou no sonho, tem medo de voltar a adormecer sozinha e é capaz de se agarrar aos pais, implorando conforto, podendo demorar algum tempo até a criança se acalmar.

Terrores nocturnos

Os terrores nocturnos e os pesadelos são perturbações diferentes. Os terrores nocturnos são mais frequentes entre os 2 e os 5 anos de idade. É um distúrbio caracterizado por um despertar repentino, que pode ser iniciado por um grito de pânico, choro ou vocalizações incoerentes, nesta situação ao contrário dos pesadelos, quem fica mais assustado não é a criança mas os pais. A criança está agitada, com uma expressão aterrorizada, parecendo que está em luta com “monstros”, meio alucinada, mas não está acordada como nos pesadelos. Não percebe a aproximação dos pais, podendo mesmo afastá-los, pois podem ser confundidos com os “monstros”. 

Os terrores nocturnos ocorrem quase sempre na segunda metade da noite, o que acontece é uma mudança no ciclo do sono, altura em a criança não está a dormir nem acordada, não existindo percepção da realidade, mas onde ocorre o sonho.

Acalmar a criança não funciona e quando o episódio termina, a criança volta a adormecer e não se recorda do que se passou.

Na maioria das vezes os terrores nocturnos estão relacionados com algo que assustou a criança durante o dia ou com mudanças no seu quotidiano, tais como, nascimento de um irmão, entrada no infantário, ausência de um dos pais, medo do escuro, entre ouros.

Bruxismo

Caracteriza-se por um range os dentes durante o sono, resulta na generalidade do desalinhamento dos dentes, por não se conseguir controlar o movimento dos maxilares ou até por parasitas intestinais. Na maioria das vezes passa até à adolescência.

Sonambulismo
 
Ocorre com frequência entre os 8 e os 12 anos de idade. É visível quando a criança se senta na cama ou anda durante o sono, mesmo estando com os olhos abertos, não consegue ver, podendo até falar mas sem se perceber o que diz.


É importante reduzir o risco de acidentes, colocando algumas luzes de presença, fechar as portas à chave e, sempre que a criança se levanta deve-se reencaminhá-la para a cama de preferência sem falar. 


Insónias

As insónias caracterizam-se pela dificuldade em adormecer ou pela falta de sono. Está relacionada com uma mudança brusca na vida da criança ou associada a momentos críticos do seu desenvolvimento.
A causa deste problema pode estar interligada com situações de ansiedade ou a traumas, tais como, mudança de escola, separação dos pais, morte de um familiar.

Agitação nocturna

São perturbações rítmicas do sono, onde existe agitação como virar ou bater com a cabeça de um lado para o outro constantemente. Nesses momentos, a criança pode simular convulsões, gemer, dar gritos, grunhir ou rosnar.

Apneia


As crianças têm dificuldades respiratórias pelo facto da passagem do ar ficar obstruída, sendo esses sintomas notórios na dificuldade em respirar enquanto dorme, respiram pela boca, ressonam ou têm excesso de sono durante o dia.
Narcolepsia

É uma perturbação rara que afecta 1 em 2000 adultos e pode surgir pela primeira vez na adolescência, é de origem neurológica genética que pode gerar ataques de sono incontroláveis.

Como pode ajudar a criança a ultrapassar as perturbações do sono:

  1. Falar com a criança durante o dia de forma natural sobre o que aconteceu durante o sono.
  2. Respeitar os medos da criança, transmitir-lhe segurança, deixar uma luz acesa, incentiva-la a dormir com o seu peluche favorito, fazer com que perceba que você vai estar por perto e que não deixa que nada lhe aconteça.
  3. Criar rotinas e momentos tranquilos antes de a criança adormecer.


Se os sintomas persistirem para além de um período superior a 6 meses ou se são muito violentos e intensos procure um psicólogo para compreender o que se passa com a criança para que estas perturbações não deixem sequelas no seu desenvolvimento.



A psicoterapia pode ser importante para a criança aprender a lidar com os medos e ultrapassar as suas dificuldades do sono.


 Dra. Maria Carvalho Pereira, Psicóloga Infantil

terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

Medos e fobias nas crianças


Monstros &Companhia

Entrevista cedida por  Maria de Jesus Candeias à  Revista Pais & Filhos, Dezembro de 2013.
Texto de TERESA DIOGO
Ilustração de CARLA ANTUNES


Os medos na infância são tão comuns quanto importantes para o desenvolvimento. Vão variando consoante a idade, mas todos requerem confiança e segurança.

O Rodrigo tem dois sprays anti-monstros no quarto, um em cima da mesa-de-cabeceira, não vá ser preciso atuar durante a noite, e outro no móvel dos brinquedos, para ter a certeza de que não é apanhado desprevenido enquanto brinca. Todas as noites, antes de ir para a cama, a mãe acompanha-o na ronda em busca de seres assustadores debaixo da cama, dentro do guarda-fatos, atrás do cortinado... Sempre com o spray mágico na mão. Só se deita depois de se certificar que não há nenhum monstro escondido. A mãe fica no quarto até ele adormecer e a luz de presença fica acesa a noite inteira. À falta de uma solução melhor, a mãe do Rodrigo, de cinco anos, resolveu munir o filho de uma ferramenta implacável contra os monstros imaginários que lhe causam tanto medo e que tornavam a hora de deitar num suplício. Inspirou-se nas ideias que encontrou na internet, agarrou num vaporizador vazio, enche-o de água, colou um rótulo apropriado a um produto anti-monstros e disse-lhe que agora já não precisava de ter medo: se aparecesse algum monstro, bastava usar o seu spray mágico! A ideia agradou-lhe e, embora ainda com algum receio, a ida para a cama assumiu contornos de brincadeira e tornou-se muito mais fácil. Ao mesmo tempo, a inspeção exaustiva ao quarto permite-lhe enfrentar o medo e verificar que, afinal, ali não há monstros.

A “técnica” do spray anti-monstros é usada por muitas famílias por esse mundo fora, como se pode constatar nos inúmeros mommy blogs que a sugerem. Para algumas crianças, como é o caso do Rodrigo, pode de facto ser uma grande ajuda e transmitir a tão desejada segurança para enfrentar as criaturas imaginárias, mas para outras esta estratégia pode não se revelar eficiente. Antes pelo contrário: a caça aos monstros significa que existe a possibilidade real de estar frente-a-frente com um deles e esta ideia é ainda mais assustadora. Por outro lado, a inspeção ao guarda-fatos ou debaixo da cama pode levar a criança a pensar que se os adultos estão à procura é porque os monstros existem mesmo. Ou seja, cada caso é um caso e o melhor é escolher a estratégia de ataque com bom senso, porque o que resulta para uma criança pode agravar ainda mais a ansiedade de outra.

“Os medos na infância são muito comuns, mas variam naturalmente de criança para criança, de acordo com as suas caraterísticas individuais e dos contextos. O mesmo estímulo pode ser ameaçador para uma criança e ser indiferente para outra. Além disso, um mesmo estímulo pode numa dada circunstância ser ameaçador para a criança e noutra situação ser-lhe totalmente indiferente”, sublinha Maria de Jesus Candeias, psicóloga clínica e psicoterapeuta infantil. Uma criança de três anos pode, por exemplo, ter medo de entrar sozinha numa sala cheia de crianças que não conhece, mas sentir-se completamente à vontade se estiver acompanhada pela mãe ou pelo pai.

O medo é um sentimento universal “que faz parte de todos nós e, em particular, faz parte do crescimento das crianças”. Transmite-nos a sensação de que corremos perigo e é geralmente acompanhado de sintomas físicos, “tais como aceleração cardíaca, vermelhidão e angústia”. Embora estes sintomas possam ser bastante incómodos, servem muitas vezes para “nos alertar do perigo e como tal para nos proteger”. Na verdade, sem a capacidade de sentirmos medo, dificilmente teríamos sobrevivido enquanto espécie. E esta função protetora e adaptativa é especialmente importante nas crianças. “É este medo que faz com que as crianças reajam a estranhos, não se aproximem de certos animais entendidos como perigosos, não se afastem dos pais em locais desconhecidos, evitem entrar em sítios escuros ou sintam a necessidade de recorrer a um adulto para o fazer. É este medo que faz com que as crianças se atirem para o colo da mãe ou do pai quando ouvem um barulho violento”, explica a psicopedagoga Daniela Sciaccaluga, sublinhando, porém, que “é importante que, uma vez cumprido o papel do medo de avisar o organismo do risco iminente e provocar uma reação ajustada, este diminua, caso contrário torna-se inútil e perigoso”. Numa situação “normal”, quando uma criança se apercebe, por exemplo, que afinal aquele barulho violento não se trata de algo ameaçador, o medo “deverá de imediato e naturalmente recuar”.

Das trovoadas às bruxas

A natureza dos medos varia consoante a idade da criança e há medos “típicos” em cada fase do crescimento. Assim, é natural que os bebés reajam com medo ao escuro, a ruídos fortes, a estranhos e ao afastamento da mãe ou do pai. Entre os três e os seis anos de idade são frequentes “os medos sobre as coisas que não são baseadas na realidade (como o escuro, monstros e fantasmas), animais, ruídos muito altos e estridentes”, esclarece Maria de Jesus Candeias, referindo que “ esses medos são transportados muitas vezes para a noite na forma de pesadelos”. Já o medo de perda dos pais é, geralmente, “transportado para a recusa escolar”. Nas crianças entre os sete e os 12 anos, os medos refletem circunstâncias reais que lhes podem acontecer: “É comum o medo da morte, de doenças, de catástrofes naturais”.

No apartamento em frente ao de Catarina, três anos, vive uma família simpática, com duas filhas pequenas, com quem a menina  brincava, tardes a fio… até que ao agregado familiar vizinho se  juntou um cão. Minúsculo, enérgico e meigo, que procurava apenas festas e colo. Mas, para Catarina, aquele é um ser demasiado assustador, que a deixa em pânico e sem saber onde se esconder. Deixou de visitar as amigas e tem pavor de se cruzar com o cão à porta de casa. “Sempre que saímos de casa, a Catarina esconde-se
atrás do sofá e obriga-me a verificar se o Óscar não está no hall. Só quando tem a certeza de que ele não está é que sai disparada, entra no elevador e implora-me que me despache a fechar a porta de casa e do elevador. Se demoro mais do que um minuto, desata aos gritos e a tremer, com medo que ele apareça. É inexplicável”, conta a mãe, sublinhando que Catarina nunca foi mordida por nenhum cão, nem passou por qualquer episódio traumático com animais. A mãe já lhe explicou que o Óscar é um bom cão, é inofensivo e
só quer ser amigo dela, mas Catarina encolhe-se só de ouvir falar nele. Se, por azar, se cruzam à entrada do prédio, Catarina trepa pela mãe acima, esconde a cara no seu pescoço e grita como se estivesse a ser atacada por um monstro. “É irracional e já não sei o que fazer para que ela perca este pânico. Evito a todo o custo que se cruzem, mas às vezes acontece… e é terrível”.

Quando uma criança apresenta um medo assim, seja de um cão, de estranhos ou de um corredor longo e escuro, é natural que os pais a tentem proteger dessa situação. No entanto, este instinto protetor pode ser prejudicial. De acordo com um estudo recente, publicado na “Behavior Therapy”, as crianças que evitam situações assustadoras têm mais tendência para sofrerem de distúrbios de ansiedade na idade adulta.

Os investigadores explicam que evitar situações que provocam medo é contraproducente, a longo prazo, porque impede as crianças de descobrirem que a situação que temem, afinal, não é assim tão assustadora. Ou seja, impede-as de aprenderem que são capazes de lidar com situações desafiantes e de controlar a ansiedade.

Os pais têm aqui um papel determinante: “podem e devem ajudar as crianças a enfrentar os seus medos, aumentando-lhes a confiança” e evitando que “evoluam para reações fóbicas”, esclarece Maria de Jesus Candeias. Em primeiro lugar, é essencial que reconheçam que o medo é real. Depois devem incentivar a criança a falar sobre o assunto, ajudando-a assim a “libertar-se da angústia” para que o medo se torne menos intenso. Expressões como “Não sejas ridículo! Não existem monstros no armário” são proibidas. “Nunca se deve menosprezar o medo da criança, nem forçá-la a superá-lo sozinha”, sublinha a psicoterapeuta infantil. “É importante que os pais olhem para os medos dos filhos como naturais e próprios do seu desenvolvimento e que aprendam, eles próprios, a relacionar-se com estes medos de forma descontraída”, acrescenta a psicopedagoga Daniela Sciaccaluga.

A criatividade e a brincadeira podem ser fortes aliadas na luta contra os medos. “No que toca ao medo do escuro, de fantasmas, monstros, bruxas diabólicas, por exemplo, sugiro aos pais que, em conjunto com os filhos, tornem esse medo concreto, lhe deem um nome, uma cara, um tamanho, um peso, enfim, que lhe dêem uma identidade e o coloquem no contexto real, fora da imaginação da criança, pois aí já poderão vê-lo, falar com ele, tocá-lo, construir histórias e chegar a finais felizes”, sugere a Daniela Sciaccaluga, referindo que “essas histórias podem ser de variadíssimas índoles: um jogo de futebol contra o medo, uma aventura em que o João fica amigo do monstro ao salvar o seu gatinho, a história do fantasma que afinal tinha era medo do João… Enfim, as possibilidades são infinitas, mas a ideia base é retirar o poder da bruxa, do monstro, do fantasma, do escuro ao humanizá-los e torná-los próximos da família, logo, num lugar concreto e controlável, sempre num contexto humorizado, divertido e descontraído”.

Na maioria dos casos, o medo é passageiro, próprio da idade e tende a desaparecer de forma natural. Contudo, quando se torna exagerado, desproporcionado, excessivamente intenso e persistente, acaba por resultar em sofrimento para a criança. Nestes casos, estamos já perante um quadro fóbico. “Uma fobia é um medo persistente e irracional que leva a criança a evitar a todo o custo, ou a suportar com um sofrimento enorme, situações, objetos ou atividades que são assustadoras para si. A fobia carateriza-se por um aumento da ansiedade a limites que impedem a criança de funcionar normalmente”, explica Maria de Jesus Candeias.  De acordo com a psicóloga e psicoterapeuta, “as fobias nas crianças têm como pano de fundo a angústia de desamparo, o medo de abandono e as relações pais filhos pouco securizantes”. As crianças inseguras e com pouca autoestima “tendem a desenvolver mais frequentemente fobias”.

Estes medos irracionais e desproporcionados podem ser acompanhados de sintomas físicos (dificuldade em respirar, palpitações, suores, vómitos, diarreia, dores de estômago), sintomas cognitivos (preocupações excessivas, dificuldade de concentração), alterações de humor (irritabilidade) e variações no sono (pesadelos). Implicam por isso uma abordagem e acompanhamento profissional especializado. “Se for um episódio isolado, os pais não devem torná-lo mais significativo do que é, mas se surge um padrão que é persistente e muito intenso, devem tomar uma atitude, porque se não procuram ajuda, a fobia continuará a afetar a criança com consequências graves no seu processo de desenvolvimento e de socialização”, lembra Maria de Jesus Candeias. Cabe aos pais estarem atentos aos sinais e ajudarem a criança a desenvolver confiança para enfrentar os seus medos com naturalidade, antes que evoluam para reacções fóbicas. l


Se o seu filho está na idade do medo de monstros, fantasmas, bruxas e outros seres imaginários assustadores, saiba que há estratégias que o podem ajudar a superá-lo. A psicóloga Maria de Jesus Candeias sugere algumas dicas.

Durante o dia:
- Ajude o seu filho a certificar-se de que não existem fantasmas nem monstros debaixo da cama nem dentro do armário;
- Ajude-o a entender os sentimentos descontrolados que ocorreram durante o pesadelo;
- Explique e dê-lhe informações simples, claras e credíveis para que ele possa entender os acontecimentos da vida familiar que possam estar a perturbá-lo;
- Evite filmes, programas de televisão e jogos de computador que possam ser violentos e provocar medo, insegurança ou incompreensão.

Na hora de dormir:
- Sente-se junto dele e explique-lhe o que o preocupa;
- Aceite os seus receios e a necessidade de se agarrar aos pais;
- Deixe uma luz de presença no quarto;
- Encoraje-o a usar objetos de conforto (ursinho ou cobertor preferido);
- Conte histórias que ajudam a compreender os medos e sentimentos vivenciados de forma indireta;
- Se ele recorre à cama dos pais, depois de um pesadelo, deve acalmá-lo e levá-lo de volta a cama dele, onde lhe deve dar alguns minutos de aconchego e conforto.

Entrevista cedida por  Maria de Jesus Candeias à  Revista Pais & Filhos, Dezembro de 2013.
Texto de TERESA DIOGO Ilustração de CARLA ANTUNES

segunda-feira, 16 de Dezembro de 2013

A Depressão Infantil




Ninguém está à espera que o seu filho adoeça psicologicamente. Os pais sabem que o mal-estar físico é praticamente uma inevitabilidade, adaptam-se à circunstância de ver os seus filhos com febre, cólicas, dores de dentes ou constipações. Afligem-se quase sempre, assumem que dariam tudo para livrá-las daquele sofrimento, mas sobrevivem. Aprendem a gerir a ansiedade e, de um modo geral, sentem-se mais serenos no papel de cuidadores aquando do nascimento do segundo filho.

Estes episódios de doença física são comuns a quase todas as crianças, pelo que, por maior que seja a angústia dos pais, há sempre alguém experiente por perto que transmite calma e passa a mensagem de que o mal-estar vai passar. Mas nenhum pai ou mãe está à espera que o seu filho adoeça do ponto de vista psicológico, pelo que a depressão nas crianças e jovens é muitas vezes subdiagnosticada

Em muitos casos, em particular em crianças pequenas, os sinais de alerta são pouco claros, na medida em que a depressão se manifesta de forma atípica, confundindo-se facilmente com dificuldades de outra ordem. Noutros casos os sinais estão todos lá mas os adultos ignoram-nos - não por negligência mas porque ninguém está preparado para reconhecer que o seu filho, ainda tão pequenino, possa sofrer de uma doença que nos habituámos a atribuir aos adultos
Se a criança ou adolescente chora por tudo e por nada é mais fácil supor que teve um desgosto amoroso ou está a fazer birras por um motivo fútil qualquer. Se há resistência em ir à escola é porque ele(a) passou a ser preguiçoso(a). Se o filho se mostra incapaz de dormir sozinho e salta para a cama dos adultos é porque é mimado e está com dificuldade em crescer. Se há alterações súbitas de humor e/ou irritabilidade constante é sinal de insolência ou mau-feitio. Se a criança ou adolescente se queixa porque ouve barulhos esquisitos durante a noite é porque está a querer chamar a atenção. Se há alterações do apetite é porque está com a mania das dietas. E por aí fora.

A verdade é que cada pai ou mãe ama demasiado os seus filhos para reconhecer numa fase precoce o aparecimento da doença. De um modo geral, passam-se vários meses (às vezes anos) até que os pais assumam que as dificuldades são reais, não podem ser atribuídas ao desenvolvimento e precisam de ser, pelo menos, avaliadas por alguém clinicamente experiente.

Nem todos os clínicos estarão aptos a reconhecer os sinais de depressão em crianças e adolescentes mas uma avaliação rigorosa - realizada por um psicólogo infantil - permite imediatamente que a família se sinta ajudada e que a luz comece a visualizar-se ao fundo do túnel. 

Depois do diagnóstico podem surgir outros problemas, na medida em que os pais tendem, por um lado, a querer perceber a origem da doença (e isso pode passar por atribuir culpas injustamente), e, por outro, a mostrar grande resistência à intervenção farmacológica. Compete naturalmente ao médico que acompanha a criança esclarecer os pais a respeito das vias mais seguras para promover uma recuperação rápida e sólida aos seus filhos. A ideia de que o próprio filho possa ter adoecido sem que haja qualquer evento traumático identificável associada à necessidade de tomar um antidepressivo é contranatura, assustadora, impactante. 

Mas a verdade é que a depressão é uma doença com origem multifactorial, que nem sempre está associada a uma reacção a um acontecimento específico e que, para ser tratada, depende quase sempre da combinação de medicação antidepressiva com psicoterapia. 

Quando o problema é gerido como em qualquer outra situação de doença, isto é, com informação rigorosa, confiança nos médicos e cumprimento das prescrições, a depressão é tratada e a família readquire o bem-estar.


Por Maria de Jesus Candeias, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Infantil

segunda-feira, 9 de Dezembro de 2013

Avaliação Psicológica da Criança no âmbito de Regulação de Competências Parentais

A avaliação psicológica forense no contexto do divórcio e da regulação do exercício das responsabilidades parentais é, na maior parte dos casos, uma tarefa extremamente complexa e exigente para os profissionais envolvidos na tomada de decisão.

O pedido de um relatório forense para avaliação psicológica pode chegar até ao psicólogo através do tribunal, advogado, ou de um dos progenitores.
O processo de avaliação psicológica  para regulação de responsabilidades parentais, baseia-se na observação das dinâmicas familiares o que permite analisar o grau de proximidade, conforto, linguagem corporal e verbal, qualidade da interação e comunicação; avaliação psicológica da criança de forma não invasiva; entrevista clínica aos progenitores; conversar/entrevistar professores e outras figuras significativas. 
Por exemplo, no caso de a mãe ou o pai ou ambos terem uma nova relação ou filhos, estes devem ser incluídos na observação das dinâmicas familiares, pois a criança irá estar em contato com os novos membros e é importante o psicólogo compreender qual o seu papel e como se sente na relação.
O objetivo é o técnico conhecer as dinâmicas familiares, as necessidades e desejos da criança, e quais os pontos fortes e as dificuldades de cada progenitor no envolvimento com a criança. Podendo dar o seu parecer acerca da regulação das responsabilidades parentais e aconselhar os pais se necessário a ter aconselhamento parental e/ou psicoterapia.
É importante que os pais não instruam ou influenciem a criança no que esta deve dizer ao técnico, não lhe criem expetativas do que poderá advir das intervenções, não há necessidade e devem permitir que a criança se sinta livre para se exprimir e ser honesta. 
Independentemente de quem faz o pedido, ambos os progenitores são contactados para participarem na avaliação, e é muito importante para o psicólogo escutar ambas as partes e poder observar a relação destes com os menores.

Um relatório que consista apenas na avaliação de uma das partes perde alguma da sua consistência, mas a recusa da outra parte também poderá ser relevante e dar indicadores ao psicólogo e magistrados.
Os relatórios forenses realizados pelo psicólogo serão elaborados com total imparcialidade, com responsabilidade ética e deontológica por parte do deste, tendo em conta, apenas, o superior interesse do(s) menor(es).
Significa isto, que independentemente de quem nos procura o nosso parecer irá sempre de encontro às necessidades manifestadas pela criança e não dos pais.

A importância dada pelos magistrados ao trabalho pericial forense, concretamente no que concerne à avaliação psicológica dos filhos e progenitores e das dinâmicas familiares, quando estão em causa questões que se prendem com a residência das crianças e com o regime de visitas é fulcral neste processo.

Por Dra. Catarina Policarpo, Psicóloga Clínica, Mediadora Familiar.

domingo, 20 de Outubro de 2013

Como podem os pais ajudar para minimizar o sofrimento da criança face ao divórcio ?

As crianças beneficiam de uma coparentalidade positiva 

A Parentalidade Positiva define-se como um “comportamento parental baseado no melhor interesse da criança e que assegura a satisfação das principais necessidades das crianças e a sua capacitação, sem violência, proporcionando-lhe o reconhecimento e a orientação necessários, o que implica a fixação de limites ao seu comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento”. (Recomendação do Conselho da Europa, Lisboa 2006)

 Quais os alicerces de uma boa parentalidade?

 Um dos grandes desafios que se apresentam aos pais, na situação de separação ou divórcio, é a relação que se estabelece entre eles no que concerne à educação e vida dos filhos.

Saber comunicar, organizar horários para dividir os tempos com os filhos, que regras e limites aplicar, a melhor forma de os acompanharem sem atropelos um ao outro, sempre atentos à satisfação das necessidades das crianças, serão seguramente alicerces para uma boa parentalidade.

O fim da relação conjugal não tem de significar o fim da relação parental, sendo apenas necessário encontrar e partilhar estratégias para que as coisas funcionem. É prioritário, no sentido do bem-estar dos filhos, que os pais, apesar do turbilhão de emoções por que possam estar a passar, procurem reorganizar-se emocional e mentalmente, cientes de que as crianças só têm a beneficiar se assim for.

As crianças adaptam-se facilmente a novas situações, mas é necessário proporcionar-lhes um ambiente seguro e estável, fazendo-as sentir amadas e protegidas por ambos os pais. 

 As nossas recomendações

 Pais e mães consideram que os filhos devem passar o tempo que têm disponível com eles e menos com os cuidadores externos, mas é igualmente importante que a criança partilhe também o seu tempo com membros da família alargada (avós. tios, primos) sem que isto seja visto como negativo para a mãe/pai. Toda a família que, antes do divórcio, mantinha contato com a criança e com quem esta desenvolvia uma relação afectiva, deve continuar presente na sua vida por constituir um valioso apoio.

Importa também reter que se pretendemos uma parentalidade positiva, não é permitido o progenitor/família denegrir a imagem do outro perante a criança.

 A comunicação e a cooperação são fundamentais para o planeamento e organização de actividades, bem como a existência de regras e limites, o que transmite maior segurança à criança, que está constantemente a testá-los.

Embora cada progenitor possua uma forma de educar (mais rígida, mais flexível, ponderada), na medida em que todos somos diferentes, é importante que procurem definir que crenças e valores pretendem, em conjunto, transmitir aos seus filhos, delineando assim o percurso a seguir.

As ordens não devem ser contraditórias, sendo fundamental a coordenação entre pai e mãe, que devem também estar cientes da importância do elogio à criança tanto quanto da responsabilização pelo não cumprimento da ordem.

Realçando de novo o papel da comunicação, há situações que exigem mais do que um simples sms. Por exemplo, se acontece que no fim de semana, que cabe à mãe, esta tem que trabalhar, deve contatar o pai diretamente, explicando o problema na expectativa da sua resolução (caso ele esteja disponível) ou, não o estando, de ter de procurar outra alternativa segura. São situações deste tipo que não podem ser encaradas como má vontade, por parte do outro, sob pena de se entrar em desnecessários conflitos.

Para os filhos, é muito salutar verem os pais felizes, sendo essa uma forte razão para o estarem também.

Cada pai/mãe deve dar o seu melhor e procurar respeitar a opinião do outro, mesmo que não concorde, pois esta a trabalhar na construção de valores e princípios que transmite aos filhos.

 É importante que cada progenitor tenha consciência que o outro é um bem precioso na vida dos seus filhos e que contribui para o seu desenvolvimento e crescimento.

Podemos sempre pensar que somos melhor que o outro, mas o que importa interiorizar, acima de tudo, é que a criança precisa dos dois e vai absorver os conhecimentos, os saberes e as experiências diferentes de cada um, enriquecendo com a diversidade.

Outro aspeto a focar é permitir que a criança leve consigo os seus pertences, se sentir necessidade, para a casa do pai ou da mãe, independentemente de quem os comprou. Será para ela mais confortável e dar-lhe-á um sentimento de maior segurança.

A planificação parental deve ser reajustada sempre que surjam alterações das necessidades, horários e mudanças familiares. As crianças devem ter tanto tempo de rotina estruturado como tempo livre com cada um deles, pai ou mãe.

O que provoca maior dor nas crianças não é propriamente o divórcio, mas sim os conflitos e discussões entre os pais que devem sempre ser evitados na sua presença.

O nosso conselho...

Sabendo que o exercício da parentalidade é uma experiência gratificante, mas também muito exigente e envolvente, quando os pais tomam a decisão de se separar/divorciar e se confrontam com dificuldades de comunicação, mas querendo, ainda assim, partilhar uma parentalidade positiva de forma a protegerem os seus filhos, podem recorrer à ajuda de um profissional, de um mediador familiar ou de um psicólogo que possa ajustar um plano de parentalidade às características dos progenitores, da criança e dos familiares e ainda a outros suportes em casos de contextos sociais e económicos difíceis.

A coparentalidade, exercida de forma positiva, ao envolver apoio e comprometimento mútuo, pode influenciar directamente a ligação pais/criança, criando vínculos mais fortes.

Por Dra. Catarina Policarpo, Psicóloga clínica e Mediadora familiar.