"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

quarta-feira

A depressão na criança e no adolescente


Ninguém está à espera que o seu filho adoeça psicologicamente. Os pais sabem que o mal-estar físico é praticamente uma inevitabilidade, adaptam-se à circunstância de ver os seus filhos com febre, cólicas, dores de dentes ou constipações. Afligem-se quase sempre, assumem que dariam tudo para livrá-las daquele sofrimento, mas sobrevivem. Aprendem a gerir a ansiedade e, de um modo geral, sentem-se mais serenos no papel de cuidadores aquando do nascimento do segundo filho.

Estes episódios de doença física são comuns a quase todas as crianças, pelo que, por maior que seja a angústia dos pais, há sempre alguém experiente por perto que transmite calma e passa a mensagem de que o mal-estar vai passar. Mas nenhum pai ou mãe está à espera que o seu filho adoeça do ponto de vista psicológico, pelo que a depressão nas crianças e jovens é muitas vezes subdiagnosticada

Em muitos casos, em particular em crianças pequenas, os sinais de alerta são pouco claros, na medida em que a depressão se manifesta de forma atípica, confundindo-se facilmente com dificuldades de outra ordem. Noutros casos os sinais estão todos lá mas os adultos ignoram-nos - não por negligência mas porque ninguém está preparado para reconhecer que o seu filho, ainda tão pequenino, possa sofrer de uma doença que nos habituámos a atribuir aos adultos
Se a criança ou adolescente chora por tudo e por nada é mais fácil supor que teve um desgosto amoroso ou está a fazer birras por um motivo fútil qualquer. Se há resistência em ir à escola é porque ele(a) passou a ser preguiçoso(a). Se o filho se mostra incapaz de dormir sozinho e salta para a cama dos adultos é porque é mimado e está com dificuldade em crescer. Se há alterações súbitas de humor e/ou irritabilidade constante é sinal de insolência ou mau-feitio. Se a criança ou adolescente se queixa porque ouve barulhos esquisitos durante a noite é porque está a querer chamar a atenção. Se há alterações do apetite é porque está com a mania das dietas. E por aí fora.

A verdade é que cada pai ou mãe ama demasiado os seus filhos para reconhecer numa fase precoce o aparecimento da doença. De um modo geral, passam-se vários meses (às vezes anos) até que os pais assumam que as dificuldades são reais, não podem ser atribuídas ao desenvolvimento e precisam de ser, pelo menos, avaliadas por alguém clinicamente experiente.

Nem todos os clínicos estarão aptos a reconhecer os sinais de depressão em crianças e adolescentes mas uma avaliação rigorosa - realizada por um psicólogo infantil - permite imediatamente que a família se sinta ajudada e que a luz comece a visualizar-se ao fundo do túnel. 

Depois do diagnóstico podem surgir outros problemas, na medida em que os pais tendem, por um lado, a querer perceber a origem da doença (e isso pode passar por atribuir culpas injustamente), e, por outro, a mostrar grande resistência à intervenção farmacológica. Compete naturalmente ao médico que acompanha a criança esclarecer os pais a respeito das vias mais seguras para promover uma recuperação rápida e sólida aos seus filhos. A ideia de que o próprio filho possa ter adoecido sem que haja qualquer evento traumático identificável associada à necessidade de tomar um antidepressivo é contranatura, assustadora, impactante. 

Mas a verdade é que a depressão é uma doença com origem multifactorial, que nem sempre está associada a uma reacção a um acontecimento específico e que, para ser tratada, depende quase sempre da combinação de medicação antidepressiva com psicoterapia. 

Quando o problema é gerido como em qualquer outra situação de doença, isto é, com informação rigorosa, confiança nos médicos e cumprimento das prescrições, a depressão é tratada e a família readquire o bem-estar.




Por Maria de Jesus Candeias, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Infantil

sexta-feira

Os consumos de Substâncias....Famílias e (Inter) Dependências.




O consumo de substâncias é um comportamento que tem acompanhado a história da humanidade, utilizando-se como um veículo para alcançar estados alterados de consciência, para contactar com o mundo do “mágico” e do desconhecido. 

Obviamente, não se pode deixar de associar o consumo de drogas a severos problemas macroeconómicos, à saúde pública, às dificuldades de controlo social, a inevitáveis conflitos sociofamiliares e a inúmeras tragédias pessoais.

Se nos debruçarmos sobre a dimensão sociofamiliar e relacional das dependências, encontraremos diversos fatores de influência, que condicionam o comportamento aditivo. Estes fatores cruzam-se com as características particulares de cada indivíduo dependente e do seu sistema familiar, conferindo um significado específico e concreto ao consumo daquela pessoa.

Para melhor enquadrar uma pessoa que está dependente de uma substância química, deverá ter-se em conta a fase do ciclo vital em que esta se encontra:

Se se trata de um adolescente, o consumo coincide com o momento de construção da sua identidade, com a integração e aceitação no seu grupo de pares, com a sua necessidade de afirmação pessoal, etc. Não raras vezes isto significa demonstrar uma atitude de revolta ou mesmo uma “contra-relação” familiar. Se esta atitude não for “inteligentemente” contrariada e transformada, através dos fatores de proteção existentes no seio sociofamiliar do adolescente, o consumo continuado da substância poderá colidir com o desenvolvimento do jovem, originando-lhe uma instabilidade prolongada.

Se o indivíduo é adulto, a história de consumos poderá manter-se, em paralelo com a construção da sua própria família, devendo perceber-se, neste caso, de que forma é que a substância o “ajuda” a equilibrar o seu contexto sociofamiliar. Estamos, neste caso, a falar de uma pessoa que mantém uma relação “extraconjugal” com a substância, o que, com o tempo, poderá evoluir para um padrão de dependência descontrolado, afetando o casal, os filhos, o trabalho, etc.

Se o indivíduo é adulto, mas mantém uma relação dependente com sua família de origem, deverá buscar-se o significado do consumo nesse mesmo contexto. Se “fica” em casa, quiçá a pessoa dependente esteja a “servir” uma determinada função, no seio da sua família. Lealdades invisíveis, dificuldades relacionais não expressas ou outros fatores emocionais, poderão potenciar e perpetuar o comportamento aditivo.

Não podemos cair na armadilha de simplificar aquilo que é complexo: existem obviamente caraterísticas próprias e vulnerabilidades específicas em cada ser humano. 

Cada indivíduo tem uma relação única com a sua substância de eleição e cada indivíduo se insere num contexto sociofamiliar particular, que potencia certos fatores de risco e certos fatores de proteção.

Falemos então de “interdependências”. Numa família com (inter)dependências, frequentemente encontramos sentimentos ambivalentes, muito difíceis de gerir. 

Na família, a dependência tem, habitualmente, o significado de “separação”. Embora, paradoxalmente, acentue a dependência do indivíduo, pelas suas consequências inevitáveis, a substância ilícita separa a pessoa do seu mundo relacional real, transportando-a para um mundo que é inacessível aos que gostam dela. É uma ilusão de autonomia. 
Através do comportamento aditivo, o indivíduo consegue expressar não só a sua agressividade e os seus sentimentos negativos, como também os sentimentos negativos que o resto da família tem dificuldade em expressar. Com o tempo, estes sentimentos cristalizam-se no sintoma e na pessoa sintomática, sendo que, na maioria das situações, o sintoma traduz o mundo inter-relacional de todo o sistema familiar.

As (inter) dependências implicam um padrão de afastamento-aproximação sistemático, cíclico, inscrito numa teia de emoções ambivalente e difícil de harmonizar. 

É neste contexto que a intervenção familiar sistémica pode ajudar a lutar contra o problema: na co-construção responsável de uma nova história individual e familiar, livre da substância. 
Na reflexão partilhada sobre as relações familiares, como se se tratasse de olhar para uma fotografia de satélite. A presença de toda a família é fundamental para reescrever esta história, sendo que o grande objetivo terapêutico é a superação da dependência que tem afetado não apenas ao indivíduo sintomático, mas a todos. 
Para alcançar a plena INdependência, é importante contar com uma teia de relações saudável e potenciadora de crescimento e satisfação pessoal. 

Por Dra. Dora Rebelo, Psicóloga Clínica, Terapeuta Familiar.