"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

terça-feira

A mentira e o roubo na infância: normal ou patológico ?


Existem alguns comportamentos que fazem parte do normal desenvolvimento da criança, não devendo os pais alarmarem-se quando estes surgirem. 

A mentira, por exemplo, é uma conduta aprendida que faz parte dos comportamentos sociais. Nalgumas situações a mentira torna-se necessária para não magoar os outros, apesar de continuar a ser um comportamento socialmente criticado, suscitando preocupação nos pais. Durante os anos da pré-escola a criança ainda não consegue distinguir completamente a fantasia da realidade e, neste sentido, mentir pode ser uma consequência da sua imaginação e imaturidade. 

Nestes casos, os pais podem apenas mostrar a diferença entre a sua imaginação e a realidade, ou quando se trata de uma situação menos importante, simplesmente ouvir a criança.
  
Com a entrada na escola, a mentira pode surgir após uma asneira, porque a criança já tem capacidade para perceber que errou. Desta forma a mentira funciona como uma forma de evitar o embaraço. Quando mais velhas, as crianças geralmente mentem para negar algo errado que fizeram e evitar a crítica.

No entanto, quando a presença da mentira for tão frequente e intensa na vida da criança  que gere frequentemente dificuldades nas relações interpessoais da criança e/ou comece a afetar o seu funcionamento nos ambientes onde está inserida (casa, escola, amigos) é necessário procurar ajuda. 

Cada situação exige uma atuação diferente, tendo em conta a gravidade e a frequências das mentiras. No entanto é fundamental que a relação da criança com os pais promova segurança para a criança poder dizer a verdade, sem ameaças.

Um outro comportamento muito habitual nas crianças em idade pré-escolar é o tirar coisas (roubo) aos colegas.

Este comportamento pode reflectir imaturidade e incapacidade de esperar pelo que deseja ou por outro lado pode ser uma chamada de atenção sobre si própria, quando percebe que se trata de um comportamento que preocupa os pais. 

Torna-se importante compreender o que conduz a criança a esse comportamento, devendo-se transmitir simultaneamente que aquela não é a melhor maneira de obter a atenção dos pais, obrigando-a a devolver o objecto que retirou. Em idade escolar, já é menos esperado que a criança retira coisas aos outros.

Tanto a mentira como o furto são comportamentos esperados e fazem parte do desenvolvimento humano, porém, caso esses comportamentos tenham presença constante, os pais devem procurar ajuda especializada, de forma a evitar o agravar da situação.

Quando devemos procurar ajuda especializada?

Como atrás referi, é fundamental a distinção entre os comportamentos comuns para uma faixa etária ou nível de desenvolvimento e os comportamentos que permanecem contra aquilo que é esperado. O que os separa é essencialmente a sua gravidade, duração e frequência
No caso da mentira e do roubo,  se a sua presença for constante e se ocorrer simultaneamente em diferentes contextos, o acompanhamento especializado pode ajudar os pais a encontrarem diferentes formas de agir, evitando que a sua relação com a criança seja afectada. 

O psicólogo pode ajudar a família a encontrar outras formas de funcionamento que promovam a modificação de determinados comportamentos. 

A ajuda  profissional pode ser necessária quando a presença de comportamentos considerados difíceis de se lidar for tão frequente que impossibilite uma relação positiva com a criança e/ou que esteja a afetar o seu funcionamento nos ambientes onde está inserida (casa, escola, amigos). 

Em suma, o psicólogo pode, em conjunto com os pais, encontrar a melhor forma de resolver ou atenuar o problema, tendo em conta aquela família em especifico e o meio onde está inserida. 

Dra. Sara Lóios
Psicóloga Clínica Crianças, Adolescentes e Família