"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

sexta-feira

Castigos Infantis. Usar, mas não Abusar!

Admitir que já se deu uma palmada a um filho é uma confissão penosa, mas há quem defenda que é castigo que pode ser usado - não como regra, mas como último recurso.

Alguma vez deu uma palmada ao seu filho? Sim ou não? A resposta é simples, só que boa parte dos pais tem dificuldade em confessá-la. Há sempre aqueles que dão voltas e voltas à conversa para no fim, muito a custo, admitirem que, afinal, houve uma vez ou outra em que, não conseguiram evitar, e acabaram por levantar a mão. Logo de seguida vem o remorso e instala-se a dúvida de não saber se falharam na educação das crianças. Para os papás que estão à espera que alguém os liberte da culpa, fiquem desde já conscientes de que essa tarefa é complicada.



Toda a gente está contra a palmadinha. A começar pelas Nações Unidas que há década e meia tenta convencer os 47 estados-membros a abolir a prática. E a terminar em Portugal que, em 2007, alterou a legislação para punir os castigos corporais. A lei não é nova, mas poucos adultos desconfiam que dar uma palmada ao filho é crime. A acrescentar há ainda o Conselho Europeu que desde 2008 tem a campanha "Levante a Sua Mão Contra a Palmada" para promover a educação positiva.

Ninguém portanto vai contra a corrente. Ou quase ninguém. John Rosemond é dos poucos pedagogos que desafiam os pais a recorrerem à palmada para educar os miúdos como forma de pôr um travão a um comportamento inaceitável. No seu livro "To Spank or not to Spank" ("Bater ou não Bater - Manual para Pais", editado pela Gradiva) o psicólogo americano não só assume a importância da palmadinha na educação das crianças como ensina os adultos a fazê--lo de forma correcta. O castigo deve ser aplicado na palma da mão ou, então, no rabo coberto de roupa.

Bater deve ser encarado como mais um recurso disciplinar ao alcance dos pais, mas aplicado com parcimónia, adverte o psicólogo infantil - uma vez por semana é muito para crianças pequenas; uma vez por mês é aceitável aos cinco ou seis anos; e ineficaz a partir dos nove ou dez anos de idade. As palmadas, em si, de nada servem se não surgirem imediatamente após o mau comportamento e sem uma "curta explicação" adicional para a criança perceber que se trata de uma consequência do seu acto. Caso contrário, avisa Rosemond, só agrava a má conduta. Usar as palmadas como forma de ultrapassar as próprias frustrações é a principal proibição imposta pelo director do Centro Para a Educação Parental Positiva, uma instituição vocacionada para o desenvolvimento infantil.

Mais do que previsíveis foram os insultos de que Rosemond foi alvo de colegas, pais e futuros pais, mas o certo é que a sua teoria não é de todo inválida para uma boa parte dos pedagogos portugueses. Sempre com as devidas ressalvas, advertem os especialistas. Desde já, a palmada é só o último recurso a usar quando todos os outros falharam. "Bater nunca é a solução, mas isso não significa que, muito pontualmente, uma palmada não resolva um problema", diz o pediatra Paulo Oom, esclarecendo que o castigo não pode ser recorrente.

A psicoterapeuta Cristina Nunes reconhece que o tema divide muito os especialistas, mas também admite excepções à regra: "É sempre de evitar, mas poderá ser usada como um reforço negativo e como última opção." É aquilo a que os especialistas em educação chamam de "palmada pedagógica" que, a ser aplicada, nunca deve ser banalizada, explica a psicóloga clínica Maria de Jesus Candeias: "Se for prática frequente, a criança não aprende nada e só irá agir por medo, além de copiar o modelo dos pais nas suas relações com os outros miúdos." Alternativas às polémicas palmadinhas não faltam. São as outras punições que podem ser aplicadas entre os dois e os 12 anos.

Retirar um privilégio ou privar a criança de um prazer são as estratégias mais eficazes. "A punição só entra na educação como o factor menos importante", conta Paulo Oom. Afecto e estimular os bons comportamentos estão em primeiro lugar, insiste o pediatra. O castigo pode ir da proibição de jogar videojogos ou ver televisão até retirar o brinquedo preferido: "Não há receitas únicas, o que resulta com um filho, pode não resultar com outro irmão", defende Cristina Nunes.

O castigo evolui à medida que as crianças crescem, mas há outros factores ainda mais importantes a ter em conta: "Não há idade para o castigo, existe sim uma responsabilização que deve ser exigida ao longo dos anos e ainda uma confiança que os pais devem estabelecer com os filhos." Para os mais preocupados com as consequências das punições, a psicoterapeuta deixa bem claro que os castigos não causam traumas nem interferem com o desenvolvimento da criança.

Mas só resultam mediante três condições, diz Maria de Jesus Candeias: "Têm de ser aplicados imediatamente após o acto, serem proporcionais à travessura e, sobretudo, coerentes." Significa isto que depois de aplicar a punição, não há como voltar a trás: "Muitos pais perdem o controlo porque um dia decidem castigar e, no outro dia, o mesmo erro da criança já não tem qualquer consequência." O ideal, aconselha Cristina Nunes, é que o castigo seja sempre pré-estabelecido: "Antes de fazer qualquer coisa de errado, a criança tem de saber que vai sofrer uma consequência."

por Kátia Catulo, Publicado em 05 de Setembro de 2009 Jornal i

Como comunicar aos filhos pequenos que o casal se vai divorciar?


Artigo Publicado In Saúde Activa, Março 2011 por Maria de Jesus Candeias.

A separação de um casal é sempre um processo difícil, que acarreta alterações no quotidiano para toda a família. Tanto mais quando existem filhos no meio, perdidos entre inseguranças, receios e falsas culpas.

Numa situação de divórcio, não só os pais são assaltados por sentimentos avassaladores, também as crianças sentem raiva, tristeza, fracasso ou dor. Será bom não esquecer este facto e criar condições para que uma expressão emocional adequada possa acontecer.

O sofrimento dos filhos com o divórcio dos pais é uma realidade da qual não há como escapar. Porém, o modo como as crianças reagem depende, em grande escala, da maneira como seus pais se comportam, encaram esta mudança e agem um com o outro.
O que desestabiliza emocionalmente os filhos, por ocasião de um divórcio dos pais, não é só a separação em si, mas também os conflitos prévios e o modo como a separação é transmitida e vivenciada daí em diante por ambos os progenitores.

Antes de mais, e sem rodeios, é importante assumirmos que este é um passo difícil, tanto para os pais, como para as crianças. Não há forma de o tornar indolor. No entanto, há algumas variáveis que podem facilitar ou dificultar o processo.

Se a separação ainda não é uma certeza, isto é, se o casal está temporariamente separado ou se já houve outras saídas de casa antes, é contraproducente dizer aos filhos que os pais se vão divorciar. É importante que as reacções geradas por impulso sejam devidamente ponderadas, para que a precipitação dos adultos não magoe as crianças inutilmente.

Por outro lado, a partir do momento em que o divórcio é uma certeza, os pais devem preparar-se para contar aos filhos. As crianças confiam plenamente nos pais e, se perceberem que estes estão a esconder-lhes a verdade, sofrerão sozinhas e tenderão a confiar muito menos nos adultos em geral.
Para minimizar o sofrimento dos filhos, os pais devem antes de mais promover uma postura da verdade. Depois de tomada a decisão da separação, não vale a pena deixar arrastar a conversa obrigatória com os filhos. O pior é deixá-los perceber que algo se passa sem se prontificarem desde logo para falar, esclarecer e dissipar dúvidas.
 A dúvida só potencia sentimentos de insegurança e medo aos filhos, que não compreendem exactamente o que está a acontecer. A criança deve ficar a par da nova situação, o mais cedo possível e sempre em conversa, conjunta, com o pai e a mãe, juntos, e nunca por intermédio de terceiros.

Por isso, é importante que os pais se organizem em nome do bem-estar dos filhos e… CONTEM A VERDADE. Idealmente, “a” conversa deverá ocorrer quando todos os membros da família estiverem presentes. Claro que isto nem sempre é possível. A mágoa e o ressentimento podem impedir o casal de viver esta etapa a dois. Se tal não for possível, é importante que ambos digam mais ou menos a mesma coisa em momentos distintos.
Mesmo com crianças mais pequenas, é importante verbalizar a situação, nem que seja através de uma história que ilustre de forma, o mais realista possível o que se vai passar.

Há que ter sempre em atenção a capacidade de compreensão da criança, adaptando aquilo que se vai dizer à sua idade, e não esquecer que esta deve ser poupada a pormenores detalhados da separação que só contribuem para aumentar sentimentos negativos. A honestidade e serenidade devem estar presentes no discurso.

Mesmo quando a relação do casal já comporta alguma agressividade, expressa em momentos de discussões abertas, a conversa com a criança deve ser calma e serena. Explicado o porquê, os pais, por muito que lhes custe ver os filho sofrer, devem abrir um espaço para que as crianças manifestem os seus sentimentos. É importante deixá-las chorar ou mesmo expressar de forma livre todas as emoções negativas e dúvidas que geralmente marcam a reacção ao divórcio: raiva, insegurança, dor. É essencial estarem atentos aos sinais posteriores, verbais e não verbais, que a criança venha a transmitir.

O facto de as crianças, nomeadamente as crianças pequenas, não se pronunciarem em relação ao tema não quer dizer que não saibam de nada. Nalguns casos as crianças decidem cooperar com o “jogo”, respeitando o silêncio dos pais. Percebem que o assunto é melindroso e adoptam uma postura protectora: se os pais não falam, elas também não. Este sofrimento solitário pode traduzir-se em reacções muito diferentes:

- Há crianças que se portam excepcionalmente bem, achando que detêm alguma culpa nesta desgraça;
- Outras manifestam a sua tristeza através de “dores de barriga”, birras inesperadas ou resistência à escola;
- Algumas crianças tentam “proteger” o progenitor que é visto como mais fraco – o que chora mais, o que foi traído, ou o que se mostra mais abatido com a separação.
- Também há crianças que “fogem” do assunto como quem foge do monstro papão.

Quanto mais novos forem os filhos, maior a necessidade de sentirem a segurança das decisões dos pais. Daí que seja importante contar-lhes as mudanças que aí vêm. Cabe aos pais tentarem antecipar estas dúvidas.

Mesmo nos casos de divórcios litigiosos ou conflituosos, os pais devem fazer um esforço para que esta hostilidade não tenha os filhos por espectadores. Decidir a nova situação familiar - custódia, visitas, apoio financeiro, etc. - não pode ser pretexto para mais discussões.
Pelo contrário, a nova rotina familiar deve ser apresentada à criança serenamente para que esta sinta alguma segurança e confiança na sua nova vida.

São, ainda, de evitar comportamentos que envolvam os filhos no processo de divórcio, como ter discussões à frente deles ou usá-los como “arma” nas zangas.
Para marcar bem a distinção entre o que se passa na vida de casal e o que acontece entre pais e filhos, não se pode criticar a outra figura parental em frente à criança, utilizá-la como tema de discussão entre pai e mãe ou recorrer a comparações do género "a mãe gosta mais de ti do que o pai porque ele é que se foi embora". Afirmações deste género, vão futuramente levar a criança anão querer estar com o progenitor que é visto por ele como o rejeitante, o que pôs fim ao casamento. O respeito entre os ex-cônjuges
é essencial para a manutenção do bem-estar dos filhos.
As crianças devem também ser esclarecidas acerca do facto do processo de divórcio ser permanente, de forma a não alimentarem a fantasia de uma reconciliação. Logo, o casal só deve ter esta conversa com as crianças quando o divórcio é, para eles próprios,
uma situação irreversível, quando a decisão está definitivamente tomada. Os pais devem igualmente, deixar claro que ser filho de pais separados não é motivo de vergonha ou embaraço e que estão sempre disponíveis para apoiar os filhos no sentido de superarem as dificuldades inerentes à sua adaptação a uma nova situação familiar.

Esta conversa (ou estas conversas…) deve(m) servir para lembrar às crianças que ELAS NÃO TÊM CULPA NENHUMA do que está a acontecer.
Garantir às crianças que os dois vão continuar a acompanhá-las é  fundamental. Mais do que nunca é importante assegurar-lhes que ambos vão marcar presença nas suas rotinas e nas diferentes e actividades que compõem as suas vidas: escola, actividades de tempos livres, idas ao médico, mas também as refeições, a hora do deitar e o tempo em frente à televisão.

O facto de os pais já não conseguirem viver juntos não deve implicar que os filhos percam o contacto regular com qualquer um deles, já que isso prejudicaria o seu desenvolvimento.

O pai e a mãe fazem parte do património da criança. Quando um dos progenitores dificulta ou impede o contacto com o outro está seriamente a prejudicar a criança e o seu bem-estar futuro. Do mesmo modo a criança tem direito à sua família alargada (avós, tios, primos) maternos e paternos, pelo que tudo deve ser feito para que estes laços não se percam com a mudança.
Sintetizando, eis alguns conselhos para falar de divórcio com os filhos:
- Explique ao seu filho, que o pai e a mãe já não podem ou não desejam viver juntos, e que a partir de agora, viverão em casas diferentes.

- Fale com seus filhos da realidade da separação, tendo o cuidado de não culpar a ninguém.
- Assegure repetidamente aos seus filhos que ambos pais, continuam a amá-los da mesma e que ele será visitado pelo pai ou a mãe que não ficar com a sua custódia. 
- Mantenham constantes ao máximo as rotinas habituais das criança : domicílio, ambiente, relações com os pais, colégio, horários, amigos, etc. 
- Assegure aos seus filhos que eles não têm nenhuma responsabilidade pelo que ocorreu, pelo divórcio. Eles não têm culpa.
- Explique claramente que o divórcio é definitivo. Que não existe a possibilidade de voltar atrás.
- Trate de proteger as opiniões positivas que seu filho tem de ambos pais.
- Facilite a relação do seu filho com o progenitor, sendo flexível nos horários, etc.
- Trate com o progenitor que não teve a custódia, tudo relacionado com a educação, saúde, etc. do seu filho, e não use a criança como mensageiro.
È importante que os pais nãos e esqueçam que no divórcio, o conflito é conjugal e não parental, e que quando se estão a separar se estão a separar do cônjuge e não dos filhos.

M. Jesus Candeias, Psicóloga clínica e Psicoterapeuta.

jesuscandeias@gmail.com