"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Como sobreviver à própria família?

Acontece, por vezes, que existam dificuldades familiares na resolução dos desafios quotidianos, o que pode levar a que surjam conflitos entre os vários membros. Quando esta situação acontece, torna-se importante consultar um profissional para que se evite um agravar da situação. Pode até pensar que com o tempo a situação acabará por acalmar, no entanto, se o problema de base não for corretamente resolvido, mais tarde, o problema acaba por surgir novamente. 

Para se compreender o funcionamento de uma determinada família, devemos ter em consideração que vários foram e são os desafios que esta enfrenta ao longo do seu desenvolvimento. E será, essencialmente, a forma como cada família resolve e enfrenta estes mesmos desafios que irá permitir o seu crescimento e adaptação.

Quando em contexto de consulta uma família nos traz um determinado problema, vários são os pontos aos quais devemos ter atenção, nomeadamente a forma como ocorre a comunicação entre os seus membros, a vinculação, a intimidade e muito importante, os limites que existem entre as diferentes hierarquias de uma família. Essencialmente, o que caracteriza e delimita estas hierarquias são os papéis, funções, normas e estatutos desempenhados por cada elemento - numa família podemos encontrar fundamentalmente quatro pequenos grupos: Individual; Conjugal; Parental e Fraternal.

Em primeiro lugar, antes de membro de uma família, todos nós somos pessoas! Pessoas individuais com papéis e funções nos vários contextos por onde vamos passando no nosso dia-a-dia. Somos o aluno, o trabalhador, o amigo, o colega de trabalho… e obviamente que aquilo que somos em determinado contexto influencia de forma dinâmica todos os outros pelos quais vamos passando.

Num segundo momento temos o casal, composto por marido e mulher. O apoio e a adaptação entre os dois são aspetos essenciais ao seu bom funcionamento. Uma das funções do casal em relação à restante família é exatamente o desenvolvimento de limites e fronteiras que protejam o casal da intrusão de outros elementos (p.e. família de origem de cada um dos elementos do casal ou os filhos).

Num momento posterior, surgem então os Pais! Neste momento o casal começa a assumir funções executivas como a educação e proteção dos seus filhos. É a partir das interações pais-filhos que as crianças aprendem o sentido de autoridade, a forma de negociar e de lidar com o conflito no contexto de uma relação vertical. Embora composto habitualmente pelas mesmas pessoas, importa termos presente que antes de ser pai e mãe, o casal é composto pelo marido e pela mulher e dai a importância do estabelecer de limites entre estas hierarquias.

No final da hierarquia, temos os filhos/irmãos. Este pode ser considerado um lugar de socialização e de experimentação de papéis. É neste contexto que as crianças desenvolvem as suas capacidades relacionais, experimentando o apoio mútuo, a competição, o conflito e a negociação.

O facto de cada uma das hierarquias ter funções diferentes, mas ao mesmo tempo se encontrarem intimamente relacionadas, torna essencial que se encontrem definidos limites/fronteiras claras entre elas, como se de linhas divisórias se tratasse. Estes limites são, no fundo, regras que definem quem participa em cada hierarquia e como o faz, tendo como objetivo proteger a diferenciação dos seus membros.

No fundo, evitar que surjam crianças com poder sobre os pais ou até mesmo sobre os irmãos, alianças entre crianças e um dos elementos paternos contra o outro elemento. Pais que desviam sempre o conflito com os filhos para o parceiro, relações excessivas entre um dos pais com os filhos, elementos da família sem qualquer tipo de individualidade, sem espaço para si, influenciando de forma negativa todo o seu comportamento e forma de estar. Todas estas situações são pequenos exemplos de como os limites não se encontram bem definidos entre as hierarquias.

É muito importante que cada um saiba qual o seu papel, tarefas e sobretudo, até onde pode ir. O casal deverá manter um espaço seu, diferente do espaço que tem enquanto pais. A negociação de todas as questões associadas à educação dos filhos deverá ser tida sempre enquanto pais e não enquanto casal.

A maior parte dos conflitos e dificuldades que vão surgido nas famílias encontram-se muitas vezes relacionadas com a fusão destes limites. A família acaba por não ter recursos suficientes para identificar o foco do problema e neste caso, torna-se importante recorrer a ajuda especializada no sentido de reencontrar o equilíbrio familiar, através da Terapia Familiar.

É na família que as crianças aprendem a interagir, podendo-se considerar um espaço onde começam por viver relações afetivas profundas, constituindo-se deste modo uma importante base da vida social. 

Dr.ª Sara Loios
Psicóloga Clínica de Crianças, Adolescentes e Famílias
Cédula Profissional nº 020837

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