"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

sábado

As Crianças precisam de Regras para Crescer

Tal como num jogo, as regras são muito importantes em todos os aspetos da nossa vida. 

São elas que nos orientam ao longo dos vários caminhos que fomos e vamos escolhendo, ou seja, o que devemos ou não fazer, o que está certo ou errado.

É importante que os adultos enquanto pais e cuidadores reflitam sobre as regras que têm de cumprir no seu dia-a-dia e pensem no que poderia acontecer se vivêssemos num mundo sem regras e sem consequências.

Muitas vezes são as regras que definem aquilo que temos de cumprir e vão dando pistas para que cada um de nós saiba o que tem de fazer para encontrar o melhor caminho para si.

As regras são a base da disciplina, são elas que orientam a criança para que esta perceba o que se pode ou não fazer quando convivemos com os outros em sociedade, que lhe vão ensinando o que está certo e errado, e moldando o seu comportamento para que não ocorram muitas tempestades no percurso.

As estratégias a que os pais recorrem para controlar os comportamentos das crianças, podem promover ou limitar as suas capacidades de autonomia, sendo por isso essencial que não recorra a ameaças, comentários hostis, castigos severos ou gozo. Quando os pais utilizam essas estratégias, as crianças tornam-se mais dependentes e agressivas.

Para que as crianças se possam orientar é preciso que estas regras lhes sejam apresentadas segundo a regra dos 3 c’s:
Claras, bem definidas e simples (a criança deve conseguir perceber claramente o que se espera dela, que comportamentos pode ou não ter);
Constantes (não podem andar sempre a mudar);
Coerentes (devem ser aplicadas nas alturas para que estão definidas. Não devem ser aplicadas à toa, uma vezes sim e outras não, pois assim a criança não sabe o que tem de fazer. Uma vez que começamos temos que ir até ao fim e não podemos ceder).

Os adultos são responsáveis pela orientação na construção destas regras, e são eles que as vão lembrando à criança até que esta, à medida que cresce as vai aprendendo e interiorizando (até que não necessite que ninguém lhe lembre as regras). A consistência das suas respostas e a disponibilidade para ensinar a criança a gerir contrariedades vão facilitar a aprendizagem da expressão de emoções nas situações de frustração e, consequentemente a resolvê-las da forma mais adequada.

Além disso, as regras devem ser justas para que as crianças as acatem e percebam, e formuladas de forma positiva. É muito importante definir as regras de acordo com os valores da família, adaptando-as também à personalidade da criança. 

As regras não representam uma espécie de “código penal”, em que o incumprimento leva obrigatoriamente a uma punição, mas são os pais a decidir, com moderação, cada caso e as suas exceções. Algumas regras podem ser mais flexíveis, outras não, como cumprir o horário de fazer os trabalhos de casa e da hora de deitar.

Com regras firmes as crianças irão saber até onde podem ir, o que não significa obviamente que não tentem quebrar as regras e esticar os limites. No entanto, se houver dias em que o deixa fazer qualquer coisa e outros em que não deixa, ou, se primeiro diz que não e quando ele insiste muda de ideias, e diz que sim, está a baralhá-lo e ele ficará sem perceber aquilo que é aceitável.

Se pensarmos na nossa vida em geral, torna-se muito mais fácil cumprir uma regra quando tenhamos tido espaço para ser ouvidos e darmos a nossa opinião. Com as crianças é a mesma coisa. Sem perder a autoridade ou fazer muitas cedências, tente manter alguma flexibilidade, pedido à criança a sua opinião sobre qual o caminho certo a seguir. 

Por isso pode ser importante construírem as regras em conjunto e negociá-las, dando cada um a sua opinião. Para além de a envolver e fomentar a sua independência, torna a imposição de limites menos “pesada”, sendo a negociação a forma mais fácil de fazer com que as crianças aprendam a respeitar as regras. No entanto, nalgumas coisas têm mesmo de ser os pais a indicar o melhor caminho, a definir o que se pode ou não fazer, a definirem e imporem limites.


Nunca se esqueçam que é essencial dizer que não e colocar limites às crianças. A ausência de regras e limites poderá ser muito prejudicial ao bem-estar dos vossos filhos pois as crianças precisam de orientação para poder desenvolver a capacidade de exprimir e lidar com as emoções de forma adequada, o que lhe dá a capacidade de cooperar com os outros, lidar com a frustração e resolver conflitos.

Os problemas de comportamento surgem quando as atitudes inadequadas são permitidas, ultrapassando a fronteira do respeito e a hierarquia familiar. 

Tolerar comportamentos inadequados ou recear corrigir/castigar determinado comportamento ao pensar que a criança pode ficar traumatizada apenas dá poder ao surgir desse comportamento.

Quando a presença de um comportamento considerado difícil de lidar para os pais for tão frequente que começa a interferir com uma relação saudável pais-filhos, aconselha-se a procura de ajuda especializada onde o psicólogo pode ajudar a família a encontrar outras formas de funcionamento que promovam a modificação desses comportamentos. 

Em suma, um ambiente familiar estruturado, onde a criança sabe que existem limites e o que esperam do seu comportamento, recebendo simultaneamente carinho, amor e compreensão, facilita a aprendizagem das normas sociais e ajuda a sentir-se segura. 

Dra. Sara Lóios

Psicóloga Clínica de Crianças, Adolescentes e Famílias

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