"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos

quarta-feira, janeiro 08, 2020

O Impacto do Divórcio nas Dinâmicas da Família

O Divórcio e a Família


- Dinâmicas Relacionais Pós-Divórcio - 


É na relação humana onde os sentimentos mais contraditórios podem surgir. Quantas vezes assistimos, em caso do divórcio, a um casal de costas voltadas? Estão muitas vezes presentes sentimentos como a zanga, a raiva, a frustração e a tristeza. Em que cada um dos membros pretende assumir uma posição de liderança perante o outro, onde se esquecem da noção de igualdade de poder. Como se de crianças pequenas se tratassem e o mais importante naquele momento fosse decidir “quem ganha”. Mas tudo se complica quando existem filhos pelo meio, quando o casal conjugal também assume a função de casal parental.


Sabemos que manter uma relação como pais entre duas pessoas que decidiram acabar a relação enquanto companheiros, pode ser um desafio. Algumas pessoas conseguem fazer o luto do casal e renegociar e reajustar o exercício da parentalidade com o outro membro. Porém, em muitas famílias, o fim da relação de casal não significa necessariamente o fim do conflito e das divergências, arrastando para os filhos as questões que deveriam ter ficado limitadas à relação de intimidade entre os adultos.


É inevitável que o divórcio traga repercussões para todos os envolvidos, em particular para as crianças/adolescentes, onde poderão surgir tanto questões ao nível do ajustamento emocional individual, como também ao nível relacional, onde os padrões de vinculação com a figura parental com quem as crianças ficam menos tempo irão sofrer alterações. 

Menos adaptativo ainda é quando existem triangulações, em que os filhos sentem a necessidade de ser leais a um dos progenitores, afastando o outro. Nesta situação, pais resolvidos apercebem-se da situação e cortam o triângulo existente. Pais magoados aproveitam-se da situação e utilizam os filhos como arma, colocando-os no meio do conflito entre dois adultos, sem se aperceberem do impacto que isso terá nos próprios filhos.


Os Padrões Disfuncionais e a Violência Interparental


De acordo com a minha experiência enquanto psicóloga em contexto institucional com famílias com inúmeros desafios familiares, confirmando-se com a literatura existente, os efeitos da violência interparental não afetam apenas as crianças/jovens, mas também os próprios pais, que vão sentindo reduzidas as suas competências e condições para um bom exercício da parentalidade, mostrando-se incapazes ou diminuídos na resposta às necessidades fundamentais dos seus filhos. Quem não fica exausto no meio do conflito? 

Se for este o seu caso ou de alguém conhecido, não hesite em pedir ajuda. A vida não acaba com a separação e aqui, poderemos ajudá-lo/a a encontrar as suas próprias forças, a traçar um novo caminho onde possa voltar a encontra-se consigo mesmo. Faça da sua situação um exemplo para os seus filhos, um exemplo de resiliência, força e coragem.

É com frequência que assistimos a que a forma de comunicação em situações de elevado conflito se foque em objetivos pessoais dos adultos, desfasados do exercício da parentalidade. É aqui que surge a importância da intervenção, no sentido de minimizar o litígio entre os progenitores, uma vez que a qualidade da interação entre os pais após a dissolução conjugal é um forte preditor da saúde mental das crianças, que vivem neste tipo de estrutura familiar.


De facto, no que diz respeito às crianças, as consequências são diversas e podem emergir de forma diferente consoante as etapas de desenvolvimento onde a criança/jovem se encontre: 

  • Nos bebés pode manifestar-se uma falha ao nível do crescimento físico, atrasos no desenvolvimento motor, cognitivo e psicoafetivo, alterações dos padrões de alimentação e sono; 
  • Em crianças em idade pré-escolar destacam-se os comportamentos agressivos (e.g., com adultos e /ou pares, crueldade com os animais, destruição de objetos), ansiedade, dificuldades de separação; 
  • Em crianças entre os cinco e os doze anos pode começar a evidenciar-se o bullying, sintomatologia ansiosa e/ou depressiva, comportamentos de oposição, baixo rendimento escolar, falta de respeito por pessoas do sexo feminino, desenvolvimento de crenças inadequadas sobre papéis de género, normalização da violência e consolidação de papéis de género estereotipados; 
  • Os adolescentes e jovens adultos podem manifestar padrões de relacionamento violento na intimidade (tanto como agressores ou como vítimas), bullying, baixa autoestima, suicídio, queixas somáticas, crenças e papéis de género estereotipados, fraco rendimento ou mesmo absentismo escolar, consumos de alcóoll e /ou estupefacientes e fugas de casa.

Reforço que, tanto no caso dos pais como no caso dos filhos, não tenham vergonha de pedir ajuda. A existência de um espaço seguro para uma criança ou adolescente a viver uma situação familiar tão impactante como um divórcio, que lhe permita expressar os seus medos e fantasias, podendo contactá-los e trabalhá-los na presença apoiante da terapeuta, fará toda a diferença. 

A experiência de um apoio seguro e aceitante permitirá desenvolver nas crianças/jovens uma forma diferente de relação com outros adultos, criar a possibilidade de maior confiança nos seus pares, bem como em si próprio, permitindo construir uma nova realidade.


Quando o período pós-divórcio não é caracterizado pelo conflito, ou quando os adultos são capazes de colocar de lado as suas divergências enquanto casal e unirem-se enquanto pais, tanto os pais como os filhos se conseguem reorganizar e reajustar às suas novas condições de vida. Quando esta situação não se verifica, saber pedir ajuda, torna-se essencial.

Não hesite em pedir ajuda! Torna-se mais fácil quando o caminho é feito com apoio, respeito e dedicação. Marque a sua consulta.

Dra. Sara Loios
Psicóloga Clínica 
Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Nº20837

terça-feira, maio 28, 2019

O Brincar e as Novas Tecnologias


 Brincar na Rua ou em Frente a um Ecrã?

-Vantagens e Desvantagens - 




Na minha opinião profissional, considero que de facto se torna mais saudável brincar na rua mas é sobretudo mais saudável brincar com o outro, quer seja com os pais, com os irmãos ou com os pares. Ao longo do desenvolvimento, o papel dos pais deverá ser o de estimular a brincadeira na criança, mostrar-lhes que o jogo, o movimento, o desenho ou até a leitura, podem ser tão divertidos como um computador ou a televisão.

O jogo e a brincadeira ao ar livre contribuem para o cansaço saudável que as crianças precisam para, depois de um banho e do jantar, estarem prontas a adormecer e dormirem um sono de qualidade. Além disso, permitem uma redução das tensões e do stress, aumentam a boa disposição e evitam a obesidade infantil.

O ficar em casa a brincar com um computador, telemóvel ou tablet irá diminuir o tempo dedicado à prática do desporto e ás interações sociais, o que interfere com o desenvolvimento de amizades com outras crianças, bem como irá interferir no diálogo e na comunicação familiar pois cada vez mais podemos assistir a que cada um dos membros da família passa o seu serão cada um no seu telemóvel. 


Além disso, e mais preocupante, é o tipo de conteúdos de que estamos a falar, pois infelizmente a maior parte do tempo que as crianças passam em frente a um ecrã é para assistirem a programas desadequados às suas necessidades de desenvolvimento. São vários os estudos que demonstram que os programas de televisão e os jogos de computador violentos promovem o comportamento agressivo entre as crianças, que tendem a reproduzir e aprender novas formas de agressão quando as observam em personagens violentas na televisão e em jogos de computador.

Mas como em tudo, o essencial é haver equilíbrio e não sermos fundamentalistas!

Brincar com os telemóveis também tem as suas vantagens, desde que a sua utilização seja moderada e a seleção do tipo de programas for adequada à idade da criança. O acesso a este tipo de tecnologias permite promover algumas competências ao nível da inteligência visual, tais como a capacidade de ler e reconhecer imagens, mas essencialmente dar a possibilidade de assistir a um mundo de acontecimentos e ideias que de outro modo podiam não estar acessíveis: estamos a falar de concertos, espetáculos como o teatro e outros eventos artísticos; podem conhecer vários países e cidades e os seus monumentos; podem observar como os outros resolvem os seus problemas pessoais e lidam com questões difíceis e sobretudo que existem muitas realidades diferentes das suas (por exemplo, a pobreza, a velhice).


De uma forma geral, os jogos de computador e os programas de televisão podem proporcionar importantes experiências de aprendizagem para as crianças. O importante é mesmo controlar o que os seus filhos veem e quanto tempo estão em frente ao ecrã. Ajudá-los os a encontrar um equilíbrio entre essas atividades e as outras, que envolvam interação social e formação de amizades, o desporto e a leitura.



Se tem dificuldades em gerir o tempo que o seu filho passa em frente a um ecrã, se considera que esse tempo está a interferir com a vossa qualidade de vida, nomeadamente ao nível ao sono, rendimento escolar e relações familiares, não hesite em procurar ajuda. Juntos, vamos conseguir encontrar o caminho!

Entrevista cedida por Dra.ª Sara Loios, Psicóloga Clínica e Familiar, para a Rádio Renascença no Dia Internacional do Brincar
28 de Maio de 2019