"É ATRAVÉS DA VIA EMOCIONAL QUE A CRIANÇA APREENDE O MUNDO EXTERIOR, E SE CONSTRÓI ENQUANTO PESSOA"
João dos Santos
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domingo, novembro 06, 2011

Hiperactivos ou com sono?


Em Portugal dorme-se pouco e mal. Por trabalhar directamente com crianças e adolescentes, tenho verificado que surgem cada vez mais casos de crianças que apresentam perturbações do sono. Teresa Paiva (Neurologista) e Helena Rebelo Pinto (Psicóloga) realizaram recentemente um estudo em que concluíram, através de inquéritos, que a maioria das crianças e adolescentes portugueses dormem apenas metade do que necessitam. Ora isto traduz-se numa sonolência diurna que afecta o rendimento escolar e as relações sociais. Por outro lado, diversos estudos indicaram que a más rotinas de sono está associada uma maior probabilidade de diabetes, hipertensão arterial, depressão, insónia e, tal como já foi mencionado anteriormente, insucesso escolar. O facto de dormir menos horas do que se necessita afecta a forma como realizamos a aquisição dos conhecimentos, principalmente os de cariz abstracto; assim poderemos pensar que poderá existir uma relação entre más rotinas de sono e os resultados negativos nos exames nacionais de Matemática .

Quando questionados, alguns jovens referem que dormem o número de horas considerado necessário pois levantam-se perto da hora do almoço ou a meio da tarde. No entanto, é essencial que tenham presente que esse sono não tem a mesma qualidade pois existem hormonas que apenas são segregadas quando estamos a dormir durante a noite, estando isto relacionado com a evolução humana. Infelizmente os conhecimentos teóricos não são suficientes para mudar hábitos, principalmente os de cariz social pois muitos adolescentes têm actividades sociais nocturnas que recusam abandonar com risco de exclusão do círculo social que conhecem. Os horários das discotecas, as mensagens de telemóvel nocturnas gratuitas e a divulgação de informações nas redes sociais como o Facebook promovem este tipo de práticas nocturnas. Por outro lado, os horários laborais dos pais, que levaram a que se jante em Portugal cada vez mais tarde, levaram ao prolongamento do serão. O que poderá ser feito?

Adaptação à nova realidade familiar. Cada familiar deverá procurar encontrar os seus próprios horários, de forma a conciliar as necessidades individuais com as da família, com isto pretendo dizer que considero essencial que sejam respeitados os desejos e as necessidades de cada criança/jovem/adultos e simultaneamente exista uma procura de existirem actividades em família. Procurar concretizar isto na vida do dia-a-dia não é uma tarefa fácil pois as solicitações são diversas mas penso que é importante estabelecer prioridades.
Todos conhecemos crianças que, quando estão com sono, mexem-se mais do que o habitual, choram e fazem as “chamadas de atenção”. Assim, não é de surpreender que o professor, ao ser confrontado com a criança que diariamente vai com sono para a escola e adopte estes comportamentos, considere que estes comportamentos são “habituais”, logo que “fazer parte” da personalidade da criança – assim compreende-se o elevado número de sinalizações, por parte da comunidade docente de “crianças hiperactivas”. Não pretendo com isto afirmar que o número de crianças hiperactivas é exagerado, antes que é necessária uma avaliação correcta. Gostaria ainda de salientar que o número de crianças diagnosticadas com hiperactividade tem aumentado nos últimos anos, existindo muitos factores apontados para isso.
Num artigo divulgado no jornal Público (14/08/2011), Teresa Paiva e Helena Rebelo Pinto referem que os principais objectivos do seu projecto passam por “Divulgar os conhecimentos básicos sobre o sono e a sua relação com a saúde, sensibilizar as crianças e os jovens para a importância de dormir bem e adquirir bons hábitos de sono e preparar os agentes educativos para uma intervenção eficaz na melhoria do sono das crianças e dos adolescentes”.  
Julgo que este estudo poderá ser uma mais-valia para a sociedade em geral e para os técnicos de saúde mental em particular pois uma mente cansada dificilmente consegue pensar.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Terrores Noturnos e Pesadelos nas Crianças

Vários problemas podem afectar o sono das crianças. Geralmente, não são graves e passam com a idade, mas é preciso dar-lhes atenção e ajudar a criança a ultrapassá-los.

Terrores Nocturnos

Definem-se os terrores nocturnos como um distúrbio caracterizado por despertar abrupto que pode ser iniciado por um grito de pânico, choro ou vocalizações incoerentes. A criança pode estar sentada na cama, com uma expressão aterrorizada apresentando sinais de ansiedade (taquicardia, respiração rápida, rubor cutâneo, sudorese, dilatação das pupilas, tónus muscular aumentado.

As primeiras vezes que os pais se confrontam com um episódio de terrores nocturnos são assustadoras, uma vez que observam o seu filho a acordar em sobressalto, uma ou duas horas após ter adormecido, com sinais de agitação, muitas vezes a gritar de olhos abertos, com o olhar fixo e movimentos descoordenados, sem responder aos seus apelos para se acalmar, o que deixa os pais extenuados e perturbados, sem saber como agir.

Quando o episódio termina, a criança volta a adormecer e não se recorda do que se passou.
Muitas vezes, os terrores nocturnos estão relacionados com algo assustador ou invulgar que ocorreu durante o dia, ou ainda, relacionados com mudanças importantes na vida da criança, tais como entrada no infantário, nascimento de um irmão, ausência de um dos pais, entre outros.

O que fazer perante um episódio de terror nocturno?

1. Não tente acordar a criança, uma vez que esta não a irá ouvir e poderá, inclusivamente ficar mais agitada se se intrometer no terror (normalmente o episódio demora entre 1-10 minutos);

2. Deixe-a no berço/cama, assegurando-se que esta se encontra segura (por vezes fica de tal modo agitada que poderá cair da cama;

3. Não fale sobre o assunto no dia seguinte, uma vez que a criança não se recorda do episódio;

4. Reduza as situações de tensão durante o dia da criança;

5. Estabeleça uma boa rotina de sono, evitando a fadiga;

6. Com o passar dos anos os terrores acabam por diminuir e tal como apareceram desaparecem espontaneamente.

Os terrores nocturnos e os pesadelos são a mesma coisa?

Não. Enquanto os terrores nocturnos surgem mais no princípio da noite (em que os períodos de sono profundo são mais longos), os pesadelos são um fenómeno do sono superficial (sono REM), e por isso ocorrem mais na segunda metade da noite ou quando a manhã se aproxima (quando aumentam os períodos de sono REM).

Por outro lado, nos terrores nocturnos o despertar acontece no início do episódio, enquanto nos pesadelos a criança acorda a meio ou no final, quando a tensão causada pelo conteúdo assustador do sonho se torna demasiado intensa. Ao acordar de um pesadelo a criança rapidamente fica orientada e desperta, consegue descrever o conteúdo do sonho e deixa-se tranquilizar pelos pais (em contraste com os terrores nocturnos em que se mantém confusa e agitada, sem que nada a acalme, esquecendo o episódio logo que retoma o sono).

Pesadelos

Os pesadelos mais frequentes nas crianças de 2 ou 3 anos incluem a perda ou perigo.
Os “monstros” muitas vezes são a causa do pesadelo no entanto a separação dos pais também é problemática. Nas crianças dos 4 aos 6 anos as tensões saudáveis como o lidar com os seus novos sentimentos de agressividade podem ser acompanhados de medos e pesadelos.
Novos medos podem surgir durante o dia tais como abelhas, aranhas, elevadores, ruídos estridentes (trovão, sirenes, o ladrar dos cães, etc.) muitas vezes transportados para a noite como pesadelos.

Nas crianças com idade inferior a 5/6 anos os pesadelos são mais perturbadores pois a criança não entende que o sono não é real. A partir dos 5/6 anos a criança começa a perceber a diferença entre sonho e realidade, no entanto nesta idade, as crianças ainda precisam de acreditar no lado positivo dos seus “ bons” sonhos. Por isso, não se pode esperar que deixem de acreditar nos “sonhos maus” .

A criança assustada por um pesadelo acorda por completo e, se já sabe falar, consegue dizer algumas das coisas que se passaram no sonho. Outras vezes, não se recorda do pesadelo no entanto não se esquece daquilo que a fez sentir. A criança implora conforto, e é capaz de se agarrar aos pais, com medo de voltar adormecer sozinha. Pode levar algum tempo a acalmá-la.

Lidar com os pesadelos

A hora de dormir:

1. Sentar-se junto da criança, explicando o que a preocupa.

2. Aceitar os receios da criança e a necessidade de se agarrar aos pais.

3. Recordar a criança formas para se confortar, desviando o pensamento para coisas boas.

4. Deixar uma luz de presença no quarto.

5. Encorajar e aceitar o uso de objectos de conforto (ursinho, uma boneca ou cobertor preferido) como companhia e forma de afastar todos os medos.

6. Contar histórias que ajudam a compreender os medos e sentimentos vivenciados de forma indirecta.

7. Quando a criança recorre a cama dos pais, depois de um pesadelo, deve-se acalmá-la e posteriormente levá-la de volta a cama dela. Esta transição pressupõem aconchego e conforto durante alguns minutos no seu quarto.

Durante o dia:

1. Ajudar a criança a certificar-se de que não existem fantasmas nem monstros debaixo da cama nem dentro do armário.

2. Ajudar a criança a entender os sentimentos descontrolados durante o dia que ocorreram durante o pesadelo.

3. Explicar e dar informações simples, claras, credíveis em termos que ela possa entender acerca dos acontecimentos da vida familiar que possam estar a perturbá-la.

4. Evitar filmes, programas de televisão, jogos de computador que possam ser violentos e provocar medo ou incompreensão do assunto por parte da criança.

Se mesmo depois de tentar todas estas dicas, a situação persistir, sem que a criança consiga estabelecer um sono tranquilo, é importante a ajuda técnica especializada de um psicólogo ou psicoterapeuta, para avaliar e ajudar a criança a ultrapassar conflitos internos que possa estar a sentir como ameaçadores e que podem estar a interferir no seu sono.